Sword World, o icônico
RPG japonês,
chegará ao ocidente
trinta anos depois
Sword World é um RPG de mesa
cuja influência é imensa tanto no gênero japonês quanto no americano, mesmo que
a maioria dos jogadores não o conheça. O jogo permaneceu restrito ao Japão
desde 1989, mesmo tendo vendido 10 milhões de cópias. Mas agora, finalmente, o
jogo está sendo traduzido para o inglês graças à Mugen Gaming, uma
pequena empresa que lidera a iniciativa. A tradução para o inglês está prevista
para entrar em financiamento coletivo ainda este ano.
A
história desse feito começa com a Mugen Gaming, uma nova empresa fundada por Ai
Namina-Davison e Shawn Davison, um casal que administra a loja Level One Gaming
Shop em Kansas City, Missouri. A empresa foi criada para traduzir e converter
jogos de tabuleiro, jogos de cartas e RPGs de mesa japoneses para o inglês.
A
ideia surgiu quando a dupla visitou o Tokyo Game Market, uma convenção dedicada
a jogos de tabuleiro de todos os tipos do Japão. Ai Namina-Davison tinha
experiência em gestão de operações internacionais para empresas de ciências
médicas, o que significava que viajava bastante e tinha experiência em
trabalhar com empresas japonesas. Shawn, por outro lado, já administrava a
Level One há algum tempo.
Enquanto
passeavam pela feira, a dupla encontrou Kiri-Ai, um jogo de duelos para dois
jogadores onde samurais se enfrentam. Em entrevista ao site TTRPG Insider,
Shawn disse: “Perguntei ao designer sobre o jogo, seus planos de publicação
e metas de vendas. Ele me disse que havia impresso apenas algumas centenas de
cópias e, se esgotasse, não sabia se imprimiria mais. Então, parecia que esse
jogo ia desaparecer.” O designer, Kamibayashi, estava mais interessado em
design de jogos do que em negócios. Isso levou a Kiri-Ai se tornar o primeiro
produto da Mugen Gaming, publicado em parceria com a Lucky Duck Games.
A
transição de publicar um jogo de cartas independente para um dos RPGs de mesa
de fantasia mais icônicos da história do Japão foi um salto enorme, mas que
surgiu por puro acaso. Ai conheceu Hitoshi Yasuda, presidente da Group SNE,
detentora da propriedade intelectual de Sword World, durante uma visita à
convenção alemã de jogos Essen Spiel em 2024, em uma estação de metrô. Eles
começaram a discutir como levar Sword World ao público de língua
inglesa. Vários fãs em convenções como a GenCon expressaram o desejo de ter uma
versão em inglês de Sword World, contou o Davisons a Yasuda.
Infelizmente, o presidente da Group SNE informou à Davisons que os direitos de
propriedade intelectual para traduzir o jogo pertenciam a outra empresa. Yasuda
e Davisons se encontraram em outros eventos internacionais, como a Tokyo Game
Expo e a Essen Spiel, onde continuaram a discutir oportunidades para levar
outros jogos da Group SNE ao público de língua inglesa (como uma série de jogos
de mistério e assassinato que a empresa havia publicado).
Yasuda
acabou oferecendo ao casal a oportunidade de publicar Sword World,
afirmando que poderia facilmente recuperar os direitos caso eles tivessem
interesse. O casal aceitou sem hesitar. Desde então, eles têm se empenhado em
reunir parceiros, designers de arte e editoras para dar vida ao jogo para o
público de língua inglesa. E o resultado deverá ser um financiamento coletivo
do jogo para 2026.
Sword
World, para quem não conhece, foi originalmente publicado em 1989 com base
nos registros de jogo de um grupo local de D&D. “Um dos aspectos que
torna Sword World significativo em termos de seu papel nos RPGs no Japão é que
ele começou como uma 'reprise' de uma campanha de D&D", explica
Shawn. Em 1986, Yasuda foi contatado pelos editores da revista Comptiq para
escrever uma série de artigos sobre o novo e empolgante hobby dos RPGs de mesa,
e especificamente sobre D&D. Ele optou por estruturar seus artigos em torno
de 'reprises' — roteiros escritos, não muito diferentes dos modernos jogos de
RPG ao vivo, só que em formato de texto — que ilustravam uma partida que seu
amigo Ryu Mizuno estava mestrando para seu grupo de jogo, 'Syntax Error'.
Os
artigos foram incrivelmente populares, tanto que Mizuno reescreveu a aventura
das reprises em uma série de romances de fantasia chamada "Record of
Lodoss War". Até então, a fantasia heroica ocidental não havia realmente
conquistado o Japão, em grande parte devido à tradução japonesa muito precária
de O Senhor dos Anéis. Embora a maioria dos americanos desconheça "Record
of Lodoss War", e aqueles que conhecem provavelmente o fazem pela
adaptação para anime, a obra foi mais do que um sucesso no Japão — foi o ponto
de partida para a fantasia inspirada no Ocidente.
Shawn
explica que a então editora de D&D, TSR, “dizia algo como 'não mencione
D&D, não fale sobre nós'”. A Syntax Error se formalizou como a empresa
Group SNE e tentou criar um suplemento de D&D para Lodoss War, além de um
guia do jogador para decifrar o complexo jogo para o público japonês, mas os
projetos não prosperaram. Quando a TSR rejeitou a proposta do Grupo TNE de
transformar a história de suas mesas em um cenário escrito, o grupo decidiu
criar seu próprio conjunto de regras, que se tornou a base de Sword
World. "O primeiro foi o RPG Record of Lodoss War", diz
Ai, "e, dentro do mesmo universo, mas em um continente diferente, eles
criaram Sword World".
O
sucesso foi claro, com 10 milhões de cópias vendidas. Desde então, o jogo foi
atualizado diversas vezes e atualmente está na edição 2.5 de suas regras,
lançada em 2020.
A
versão traduzida será uma adaptação da edição deluxe 2.5 de Sword
World, lançada em 2025, conforme informou Davisons em uma entrevista ao site
Wargamer. O casal tem trabalhado em estreita colaboração com a Group SNE
para traduzir o jogo, buscando capturar sua identidade única sem usar termos
japoneses específicos. Por exemplo, Shawn mencionou a classe Grappler. Embora a
maioria dos leitores ocidentais possa presumir que um grappler seja alguém que
luta ou arremessa o oponente, a classe no jogo é, na verdade, um artista
marcial. A Group SNE insistiu que o termo foi usado com esse propósito.
Como o
mundo de Sworld se compara ao D&D? Tanto Ai quanto Shawn descreveram o
design de RPGs de mesa japoneses como "baseado em vibrações", onde os
jogadores escolhem uma classe de personagem com base na aparência ou em uma
visão ideal de jogabilidade, em vez de se concentrar na otimização, como
algumas comunidades de jogadores de Dungeons and Dragons fazem. As mesas de RPG
japonesas também costumam ser mais focadas em narrativas de curto prazo do que
nas campanhas de longa duração com as quais os jogadores de D&D estão
familiarizados, disse Davisons: “Há menos ênfase nas regras em explicar como
algo funciona, porque você deve pegar um personagem, jogar com ele por um
nível, jogar por uma aventura e depois seguir em frente”.
Sword
World também é apresentado como um jogo de fantasia mais simples. Shawn,
que se descreve como um fã de longa data de D&D
3.5, descreveu Sword World como uma “experiência de jogo
direta” baseada no uso de 2d6 mais um modificador para quase todas as
rolagens. É também um jogo onde se espera que você desenvolva multiclasses,
aprendendo habilidades de uma variedade de funções para completar a equipe.
Isso significa que há uma forte ênfase no trabalho em equipe, onde os jogadores
terão que desenvolver seus personagens com classes e habilidades apropriadas
para suprir as lacunas que seus companheiros possam ter.
A
localização de Sword World para o inglês chega em um momento de grande
concorrência no mercado. Jogos de fantasia continuam sendo um dos gêneros mais
populares de RPGs de mesa disponíveis para os jogadores, existindo diversos
jogos indiretamente inspirados em jogos e séries japonesas,
incluindo Fabula Ultima, Twilight Sword e Lancer. Então,
por que deveríamos nos importar com Sword World? Os fãs mais óbvios serão
os fãs de longa data de RPGs de mesa que adoram a mídia japonesa. Fãs de anime
e JRPG encontrarão muito o que apreciar no jogo, graças à influência do
Sword World original em franquias conhecidas como Final Fantasy,
Dragon Quest, Frieren e outras. Fãs da história dos RPGs vão adorar o
projeto. A influência do jogo é inegável em toda a mídia de fantasia, então por
que não experimentá-lo? É uma oportunidade de experimentar um jogo que
influenciou grande parte da mídia japonesa e que conquistou o público. É um
jogo com uma longa história que merece reconhecimento.
“Nada
em Sword World parece revolucionário”, escreveu Caelyn Ellis, da Rascal
News, em uma resenha do quickstart do jogo: “Mas [Sword
World] parece ser um jogo que me permitirá ter aventuras divertidas com
temática anime com meus amigos. Às vezes, é tudo o que você precisa.”
[Artigo baseado em artigos dos sites Ttrpginsider, Wargamer e Rascal]
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