sábado, 4 de abril de 2009

Material de Apoio - Lâminas II - Espadas & Simbolismo



ESPADAS & SIMBOLISMO
Os rituais mais comuns com o uso das espadas

A espada representou, desde cedo, um elemento ligado ou à status ou a honra. Seu simbolismo ia além da simples imagem de instrumento de matar. Era algo que representava alguma coisa a mais. Diferentes culturas tinham esta mesma noção fossem elas europeias, asiáticas ou africanas, muito embora fossem por motivos diferentes.

Neste material de apoio temos nossa atenção principalmente direcionada para a compreensão europeia sobre o assunto. Este direcionamento não é meramente aleatório, mas uma quase imposição do tema. O universo de RPG, embora tenha pinceladas em seus cenários de elementos orientais, é quase que em sua totalidade uma representação esteriotipada da Europa medieval.

Na Europa a espada sempre esteve envolvida por uma aura simbólica, mas que podemos dividir em duas fases – uma antes do cristianismo e outra depois.

Até o cristianismo (isso quer dizer principalmente durante os adventos dos Impérios Romano e Grego, principalmente) a espada representava algo um tanto mundano. Ela normalmente era o símbolo da bravura pessoal de um guerreiro ou de um governante. E este simbolismo era percebido muito mais pelos ‘outros’ do que pelo próprio guerreiro. Quando lutavam contra um guerreiro de renome, reconhecido por inúmeras batalhas vencidas, os adversários reconheciam a espada dele como uma continuidade de sua fama, uma representação de tudo aquilo o que ele trazia como experiência e representativo de orgulho. Ou quando lutavam contra o governante de uma nação, sua espada era vista como o símbolo de todas as pessoas que este governante tutelava ou o poder de todo o seu exército.

Após o cristianismo as coisas mudaram aos poucos. Não é novidade que o maior simbolismo surgido na Idade Média foi o impressionante desenvolvimento do poder da Igreja Católica em toda a população. Todos queriam viver dentro dos preceitos impostos pela Igreja. A espada aparece dentro dos textos bíblicos de forma bem clara. Ela faria parte da grande Armadura do Bem e possuidora da palavra de Deus (Hebreus 4:14 e Ephesians 6:16-18), além disso, era representada nas mãos do arcanjo Gabriel em representações artísticas da época e em outros segmentos bíblicos [e não sei qual a origem exata disto, mas muitos pesquisadores dizem que possivelmente foram partes escritas já durante o início da Idade média]. Não foi difícil que este simbolismo religioso fosse gradativamente agregando-se à espada e ao seu uso.

As espadas eram, agora, elas mesmas as detentoras do simbolismo. Um cavaleiro, ao empunhar uma espada, estaria levando consigo a simbologia do ideal religioso o qual acreditavam, do modo que vida que escolheram, e da forma que preferiram lavar suas vidas. Claro que podemos, encurtando o assunto, dizer que uma das grandes influenciadoras desta ligação da espada com a igreja foram elementos históricos externos tais como combates contra não católicos (eslavos e muçulmanos) e luta contra as heresias. [Não vou ir além no tema histórico, pois poderia levar uma centena de páginas discutindo sobre influências históricas disso].

Não posso e nem poderia dizer que isto acontecia com a totalidade dos que empunhavam uma espada, mas era quase uma regra. Outros símbolos também se agregavam às espadas, mas sempre complementares ao religioso e de abrangência mais reduzida. Assim poderiam trazer consigo a ideia de uma família como elemento de herança e nome. Poderia trazer a ideia de status de um grupo social ou nobre. Não importa o símbolo, sempre vinha agregado ao grande elemento religioso ‘católico’.

Cavaleiros ao serem ordenados recebiam bênçãos de sacerdotes católicos que lhes proferia os deveres de levar tal arma ‘tão’ ligada à instituição religiosas, impondo deveres éticos.

Com o andar da Idade Média esse simbolismo foi sendo personificado em desenhos e ornamentos nas próprias espadas. O local preferido era a empunhadura da espada que ganhava desenhos sacros ou apenas um design que lembrava um verdadeiro crucifixo.


SIMBOLISMO NOS RITUAIS
Não para menos que a espada era o ponto central de uma série de rituais dentro da Idade Média (principalmente). Toda esta aura de honra, mesclada à mística religiosa, conferiam à ela a imagem ritualística que lhe transformaram naturalmente em uma peça quase sempre presente nesses momentos.

Aqui temos alguns exemplos de rituais ou de expressões usando a espada:

‘Em minha honra’: realizar um juramento de honra sobre sua espada. Isto era feito por qualquer um segurando a empunhadura de sua própria espada (sem tira-la da bainha), ou beijando a lâmina da espada de outra pessoa (comum entre pessoas da nobreza). Se o juramento fosse quebrado, o indivíduo poderia ser executado pela sua própria espada.

‘Nomeando um cavaleiro’: este era o processo formal de conferir o título de Cavaleiro à um indivíduo. A cerimônia poderia ser muito formal com a muita pompa. O ganho de adornos (maior parte da cerimônia) era o processo do cavaleiro ganhar uma nova arma e armadura. A apresentação da espada era o ato central da ordenação frequentemente performatizado pela nobreza (ou por outro cavaleiro) executando um tradicional discurso. Dados históricos mostram que a maioria dos cavaleiros era nomeada durante batalhas com pouca formalidade.

'Beijar a espada': a forma mais comum de confirmar um juramento ou lealdade.

'Espada e casamento': num casamento, uma espada poderia ser usada para representar um noivo em sua ausência.

'Entregando sua espada': render sua arma para outro como parte de uma rendição ou deixando-se prender. Vitoriosos requeriam a espada para quebrarem em uma cerimônia de degradação. Isto era especialmente realizado de forma interna para expulsão visto que a espada era a marca de um oficial.

'Rito de passagem': a espada é o símbolo da fidalguia (ou de um guerreiro nos mais primitivos períodos) e quando cerimonialmente apresentado pela primeira vez, o recebedor era confirmado como integrante daquela posição social. Para qualificar essa oportunidade, era frequentemente solicitada uma prova de linhagem (herança) e treinamento, mas em especiais situações essas formalidades eram omitidas.

'Apresentar a espada': para execução.

'Cair sobre sua espada': para cometer suicídio.

'Atirado sobre a espada': ter sido morto em batalha.

'Sentenciado "à espada"': morto pela espada em execução, especialmente quando decapitando.

'Juramento de sangue': piratas e algumas culturas eram conhecidas por usar sangue para confirmar juramentos solenes. A mais comum cerimônia envolvia duas pessoas em um juramento usando suas adagas (ou espadas), abrindo um corte em suas mãos e então apertando as mãos, colocando um corte sobre o outro, numa forma de misturar o sangue. Com seu sangue unido, eles união suas almas. Quebrar este juramento era penalizado com a morte.



Todos esses rituais eram realizados principalmente nas regiões da mais ao sul e central do continente europeu, mas a espada tinha funções e usos rituais por todo o lugar onde estivesse. Por exemplo, com os vikings, os noivos antes do casamento passavam por um ritual preparado pelos homens casados da comunidade. Uma espada era colocada dentro do túmulo de um de seus ancestrais e o noivo deveria recuperá-la. Ao conseguir ele era celebrado – um menino que entra na morte e renasce como um homem com sua espada. Essa espada passava a ser parte do vestuário cerimonial do casamento – a arma que serviria para proteger e símbolo da fertilidade (elemento fálico clássico). Durante o casamento a espada era dada à noiva (que a guardaria para os futuros filhos) e lhe entregaria uma espada de seus representando a transferência de proteção da noiva de seu pai para seu marido.

Já na cultura judaica temos o ritual Tahdid, realizado até hoje por algumas comunidades ortodoxas judaico marroquinas. Esse ritual acontecia nos sete dias entre o nascimento e o ritual da circuncisão para afastar o recém nascido do ‘mau-olhado’ dos outros e da ação do demônio Jhouns. Toda os dias havia celebrações com muita comida e festividade na casa da família. Ao lado da porta da criança dois cantores ou poetas recitavam e cantavam Hrobis elogiando as qualidades da família e da criança. À meia-noite (hora do demônio) começa o Tahdid diário, quando apenas os homens da festividade ficam no quarto com uma espada de aço (considerado o melhor material para afastar o demônio) e cantam enquanto desenham nas paredes e ao redor da porta e janelas, símbolos de proteção. Dizem que esse ritual originou-se do Chir Hachirim, que mencionava que o rei Salomão era cercado por sessenta soldados carregando suas espadas.




O Nome da Espada
Um nome nada mais é do que uma simbologia que possibilitava o reconhecimento de quem a empunhava, assim como seus valores ou mitos. Essa prática pode ser encontrada em toda a Europa (e além). Historicamente essa tradição de nomear espadas teria surgido nas culturas escandinava e celta. Era ostensivamente feito para dar à arma "poder" sobrenatural e ao seu dono controle sobre esse poder.

Os exemplos são muitos:

Colada – uma das duas espadas pertencentes à El Cid (século XI), da nas suas ações na Península Ibérica.

Durendal – espada de Roland, paladino franco de Carlos Magno entre os séculos XI e XII.

Grus – pertencente à Boleslaw Krzywousty, duque da Polônia no século XII.

Joyeuse – espada de Carlos Magno. A lenda dizia que essa espada havia sido forjada para conter em seu pommel a Lança de Longinus (conhecida como Lança Sagrada ou Lança do Destino, que teria sido usada para perfurar Jesus Cristo na cruz). Outras lendas diziam que era forjada com o mesmo material de Durendal e Curtana.

Curtana, a espada da misericórdia – pertencente à Holger Dansken, o dinamarquês, outro dos paladinos de Carlos Magno. Chamada de Espada de Tristan, é usada para as coroações da coroa britânica desde os tempos de Henrique III.



[Revisão e atualização: 2018]