segunda-feira, 14 de maio de 2018

Diários da Repressão: para entender que ditadura não é brinquedo


Diários da Repressão
– para entender que ditadura não é brinquedo –


Vivemos um período estranho. Um período onde a amnésia histórica acomete muita gente. Um período onde a seletividade de informações e verdades é exercitada ao extremo do ridículo. Um período onde o absurdo de achar que uma ditadura é solução para algo além de mais violência, de perda de direitos e de vitória da irracionalidade. Por tudo isso e por muito mais que Diários da Repressão, de Fabiano Neme, é não só importante como fundamental.

O autor, Fabiano Neme, foi muito claro ao expressar suas motivações:

Quando fiquei sabendo da intervenção militar no Rio de Janeiro, fiquei muito mal. Não acreditava que teríamos que passar por tudo aquilo de novo. Sentia que precisava fazer alguma coisa pra expressar a minha indignação, de que aquilo não era o certo. Mas não sabia o que fazer. Não tenho condições de compor um "como nossos pais" ou um "para não dizer que não falei das flores". O tempo passou, e veio a execução da Marielle, e naquele momento me dei conta que não podia mais ficar sentado pensando naquilo que não conseguia fazer, e me veio aquele velho ditado comunista: de cada um dentro das suas capacidades. E a minha capacidade é criar RPGs, e disso resultou Diários da Repressão. Esse jogo é o meu grito particular, que se une aos gritos de tantos outros para dizer ao mundo que DITADURA NUNCA MAIS.”

Diários da Repressão é um hack para The Shotgun Diaries (RedBox). O subtítulo é a síntese perfeita para o âmago do jogo: “RPG sobre um grupo de revolucionários lutando contra a ditadura militar em um país latino-americano”. Mas não só isso. O jogo e a maneira como ele foi concebido apresentam de forma crível a ditadura e a repressão em seus dois focos principais. O primeiro foco é o do passado, onde a ação revolucionária e de resistência agem para impedir a continuidade de um regime autoritário, antidemocrático e desumano. O jogo em si ocorre nesse cenário onde os atos dos revolucionários e as reações do general acabarão por ser tornarem “verdades” no tempo presente. O segundo foco é na época presente, quando a verdade do que aconteceu ou o véu da mentira e da censura serão vistos pela Comissão da Verdade.

A Comissão da Verdade é onde os jogadores decidirão quantas sessões existirão, onde ao final delas o verdadeiro Diário da Repressão será escrito. Esses dois focos mostram o antagonismo de revolucionários (que avançam a trama na luta contra a repressão) e do general (que gerencia o cenário, os agentes da ditadura e as regras). Os acertos e erros de ambos os lados proporcionarão que cada um deles escreva verdades ao final de cada sessão, verdade essas que construirão a narrativa de “qual verdade emergirá das investigações”, como claramente está descrito no livro.


O jogo em si é a perigosa gangorra entre agir como revolucionário enquanto pouco a pouco o perigo inevitavelmente aumenta e as dificuldades se multiplicam. A única coisa certa é que o D.O.P.S. está sempre em seus calcanhares e que o número de seus agentes não para de crescer. Todo o cenário acaba sendo uma arma contra as necessidades dos revolucionários, que têm de usar da engenhosidade frente à dificuldades de última hora impostas pelo general.

Este é um jogo da narrativa de suas atividades como revolucionário ou da narrativa oficial de como tudo aconteceu, cabendo ao transcorrer da ação determinar para qual lado penderá. Você poderá ser preso e torturado, e isso mudará sua narrativa. O desespero pode tomar conta do revolucionário e isso alterará o destino de todo o grupo. Você pode ser levado a pensar mais na sua segurança própria e impor atitudes que sele o destino daqueles que estão lutando pela causa. Toda a narrativa e vivência se torna fato ao final de cada sessão, e isso retorna na próxima sessão como uma marca em cada personagem/revolucionário.

O jogo em si é simples, mas dolorosamente real. Ele mexe com um baú de sentimentos e impressões que precisam ser acessadas novamente para que erros não sejam repetidos, para que fatos não sejam esquecidos e para que mais uma vez todos tenham a real ideia do que estão falando quando clamam aos quatro ventos que a ditadura deveria retornar.

O projeto Diários da Repressão estará disponível de forma gratuita em PDF no Moostache em princípio no dia 20 de maio próximo. Junto com o livro teremos também fichas e tabuleiro idealizados pelo grande Dan Ramos e um arquivo em MP3 com ‘o relógio do D.O.P.S.’ para deixar sua sessão ainda mais perturbadora. Tudo inteiramente de graça. Meu papel nisso tudo foi ter sido convidado (indicação da Franz Andrade) para a diagramação do livro, algo que fiz de bom grado (principalmente por ser um esforço voluntário e gratuito) e que me deixou extremamente honrado tanto pela importância do material, quanto pela relevância do momento.

Ditadura Nunca Mais!