quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Resenha – Magos Lacunares da Torre Púrpura


Resenha – Magos Lacunares da Torre Púrpura

Recebi uma edição em pdf de Magos Lacunares da Torre Púprura, novo RPG de Prissilla Souza e Jorge Valpaços. É sempre uma responsabilidade e estresse enorme quando recebo materiais para resenhar, pois não consigo “dourar a pílula” e sou sempre direto na minha avaliação, não importa de quem venha o material. Mas ler esse material me trouxe muita satisfação.

Confesso que não conhecia o trabalho da Prissilla – pelo menos não me recordo em um primeiro momento -, mas o do Valpaços eu acompanho faz algum tempo, já tendo resenhado Arquivos Paranormais. Então não posso dizer que fiquei totalmente surpreso com material que tinha em mãos.

Magos Lacunares da Torre Púrpura é um RPG narrativo, ou seja, sua mecânica está mais centrada em como os jogadores, através de seus personagens, interferem no andamento da história, baseado em um sistema. Esqueçam manuais de centenas páginas com regras e mecânicas para todo o tipo de ação. RPGs narrativos desenvolvem-se conforme a contribuição dos jogadores com o andamento da história/aventura. Mas vamos começar... do início.


Este RPG se passa na região fictícia do Condado. Composta por várias regiões diferentes e peculiares, no Condado está localizada a Torre Púrpura, uma escola de magia para jovens com aptidão e que treinam seus ensinamentos através de tarefas. Com cada tarefa finalizada a carga de experiência vivenciada por esse jovem aprendiz se o transforma em algo novo.

A descrição que os autores realizam para cada uma das regiões, ou mesmo para torre, é acolhedora como um afago de avó. Com nomes e termos espirituosamente inventados, eles nos levam a navegar na leitura como se transpuséssemos um sonho gracioso. E não só os inventados, mas as escolha de termos e nomes comuns nos faz parar, pensar e sempre descobrir que foi uma boa escolha. Gambiologia, zoiantes, serra escorrega, praia da onda só de ida... são como pequenos tesouros perdidos entre as palavras do texto. E isso faz todo o sentido. O Condado é um local mágico, acolhedor e agradável onde queremos estar. Um local onde a magia faz sentido como sendo a cola que une tanta beleza.

O livro não se perde em exagerados detalhamentos, mas em idéias listadas e que dão o tom que facilmente poderá ser ampliado e desenvolvido. Ele não se propõe como final, mas como meio, para que os jogadores completem os espaços em branco. O acolhedor texto nos leva a baixar a guarda do dia a dia e de nossa dura realidade e mergulhar em experimentos de nomes, cores e contornos, agora criados por nós para complementar esse incrível Condado.


Pulando para a mecânica de Magos Lacunares da Torre Púrpura, ela serve ao seu propósito – possibilitar a interferência dos personagens dos jogadores na narrativa da aventura através do uso de magias. Todas as cinco formas de magia, cada uma com um grau distinto, servem como parâmetros para essa interferência na narrativa. Cada uma delas possibilita um tipo de interferência – adicionar algo à narrativa, antagonizar algo na narrativa, detalhar o que foi narrado, criar alternativas na narrativa e encerrar uma narrativa - que poderá ou não ser modificado por um de três elementos que o personagem possui – Atributo (aquilo que define o aprendiz), Artefato (algo valioso que ele possui) e Afeto (aquilo que move o aprendiz). O importante não é existir teste para tudo, mas quando, quanto e como o personagem pode interferir, tendo os dados como confirmador de “quanto sucesso” foi obtido. As jogas de dados (d6) são simples e com uma dinâmica extremamente fácil de aplicação de algum modificador sendo extremamente fácil de acompanhar as possibilidades que cada magia podem proporcionar.

Além disso, ele possui um freio muito perspicaz para a interferência narrativa. Um erro crucial em RPGs narrativos é não existir alguma forma de cadenciar a interferência dos jogadores, o que poderia levar o mestre a perder as rédeas da aventura. Em muitos RPGs desse tipo o freio é o dano ou a morte do personagem. Não aqui. Em Magos Lacunares da Torre Púrpura você pode fazer qualquer magia para interferir, desde que tenha possibilidades para isso, e essa possibilidade é possuir energia para tanto – no valor de 5. Essa energia serve para que o jogador possa investir na conjuração das magias, ou seja, são finitas. Assim, mesmo essa energia retornando ao aprendiz em algum momento, ele tem de ter cuidado e ciência de quando e como usar essa energia.

Morrer? Essa palavra não está no dicionário do Condado ou da Torre Púrpura. Você não morre neste RPG. Como muito apropriadamente o livro diz: “E, como este jogo lida com abertura e aprendizado, reforços negativos (punições) não se adequam ao jogo. Afinal, aprender também é se permitir experimentar em um espaço seguro”. Estamos acostumados a tomar cuidado ou medir nossas ações nos vários sistemas que jogamos pelo contraponto negativo que teremos como consequência. Isso não tem lugar em Magos Lacunares da Torre Púrpura. Ele propõe a descoberta, a liberação das amarras e o abraço ao seu novo e verdadeiro eu, esse “eu” que se desenvolve com a experiência das vivências do aprendiz.

Quanto à questão visual do livro, eu não posso avaliar, pois recebi um pdf do texto do livro, ainda sem diagramação ou imagens postas. O que posso avaliar é a ficha do personagem. Adorei. Não minimalista demais, nem poluída desnecessariamente. Ela está no tom do jogo – bem disposta e com o que realmente interessa. Além disso, ela tem a função de servir visualmente como marcador das ações do personagem. De muito bom gosto no geral.


Não quero me estender com receio de entregar todo o jogo antes do tempo. Esse é um RPG que merece termos em nossa prateleira. Mais do que isso, ele precisa ser jogado. Seja por sua proposta, seja por seu espírito, ele deveria ser regularmente jogado para uma nova experiência, uma nova visão, uma nova vivência. Os autores foram extremamente felizes em conceber tal obra que foge da regra concebendo algo verdadeiramente novo, não uma maquiagem narrativa, mas uma concepção narrativa nova.

Esse estupendo RPG, Magos Lacunares da Torre Púrpura, entrou em financiamento coletivo esta semana pela editora Lampião Games Studio, com valores incrivelmente acessíveis. Não perca essa oportunidade.