Mostrando postagens com marcador Romance - "Revelações". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romance - "Revelações". Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Romance II

REVELAÇÕES
Julio "Julioz" Oliveira

Capítulo - 2. O Mastro Partido

Islade caminhava apressado pelas ruas pavimentadas em direção ao porto. Andava por pequenos espaços deixados pela multidão que se dirigia no sentido contrário ao centro. O sol já iluminava pouco, a milícia se espalhava pela cidade em busca de confusões.

O jovem olhava um pequeno pedaço de pergaminho em que Rongald havia desenhado um rústico mapa. Seguindo as instruções, Islade dobrou a esquerda e se viu em uma rua ampla.

Nela, todas as casas eram grandes e de aparência fina. Olhou o mapa novamente procurando a casa a qual deveria ir. Identificou-a rapidamente. Continuou por mais alguns metros para só então chegar ao seu destino.

A casa que procurava era imponente. Mesmo comparada às outras obtinha destaque. Tinha arquitetura elfica - ele já vira construções do mesmo tipo em Valkaria. Janelas altas e de pouca largura, enfeitadas com vidro trabalhado de Cosamhir. Um muro não muito alto cercava completamente a propriedade, onde alguns guardas faziam ronda. Na entrada principal ficava um grande portão de madeira trabalhada. Islade se aproximou e um dos homens falou:

“– Quem se aproxima, e o que quer?”

“– Sou Islade Valkair, e desejo ter-me com Allaud Meroveu .”

“– Peço que aguarde” – e se dirigiu portão adentro, em uma postura exemplar.

Islade observou o segundo guarda. Era um senhor de idade avançada, cabelos brancos e barriga de taverna. Percebeu que aquela guarda, não era nada mais que fachada. Trajava uma velha armadura, que estava impecavelmente limpa. No centro do peitoral um símbolo, uma garça com um peixe em seu bico.

Ainda aguardando girou os calcanhares apreciando a bela vizinhança. O guarda retornou algum tempo depois – “Meu senhor o espera” – e abriu o portão – “siga-me, por favor.”

O rapaz foi guiado por um vasto jardim ornamentado de flores com cores exuberantes. Refletidas pelo sol, as de cores mais fortes, pareciam estar vivas. Havia estatuas, todas retratando mulheres nuas tocando instrumentos musicais, sendo a harpa o mais freqüente.

Chegaram a uma grande porta de madeira escura. Era entalhada com perfeição e mostrava a imagem da estátua de Valkaria, de joelhos e braços aos céus. Islade se espantou com tamanha obra de arte feita em uma simples porta de entrada. Seu guia se antecipou e de leve bateu na porta três vezes.

A porta se abriu sem ranger e de dentro surgiu um homem pequeno e velho vestido em trajes finos e aparentemente desconfortáveis.

“– Vamos, entre meu senhor o espera no salão de visitas” – ele se despediu e fechou a porta após Islade passar.

“– E onde fica a sala de visitas?” – perguntou o jovem - “Acho que se andar por ai sozinho posso me perder”.

O mordomo riu baixo, e com uma mesura - “Por aqui, senhor.”

Islade foi conduzido até um grande corredor, totalmente iluminado por janelas laterais, que levava a um salão imenso. Este era ricamente mobiliado tendo no centro quatro sofás, formando um quadrado. Em um deles, um senhor ainda menor que o mordomo, aguardava deitado.

“– Sente-se e me diga em que posso lhe ajudar meu jovem!” - o homem tinha uma expressão bondosa, que se perdia nos fartos cabelos.

Islade caminhou até o centro da sala. O cômodo tinha varias estantes, todas completamente cheias de livros. A organização era simétrica onde pergaminhos enrolados tomavam conta de várias estantes. O padrão de estantes só era quebrado por uma escrivaninha em um dos cantos. Parecia estar cheia com mais pergaminhos. O ambiente era arejado por um grande numero de janelas enfeitadas com lindas cortinas de linho vermelho. Tudo na sala brilhava de tanta limpeza. Os móveis eram de excelente qualidade. Coisas da nobreza.

O homem sentou-se desabarrotando suas roupas finas. Arrumou os cabelos bagunçados e fez um sinal ao mordomo, que se retirou rapidamente.

“– Bom. Vim até aqui senhor Meroveu, por que o diretor Rongald disse que podia me ajudar” – disse Islade cumprimentando-o com um aperto de mão.

“– Sem formalidades meu jovem, pode me chamar de Annaud” - disse o senhor – “se Rongald falou de mim, aceitarei lhe ajudar de bom grado. Mas que tipo de ajuda é essa?”

“- Preciso embarcar em um navio que siga para o norte” – falou Islade – “mas preciso embarcar ainda essa semana.”

O mordomo retornou com uma bandeja em mãos trazendo uma chaleira fumegando e duas xícaras de porcelana – “Aceita chá, senhor Islade?”

O jovem recusou. O anfitrião por sua vez aceitou sem demora, misturou o conteúdo com uma pequena colher de prata e bebericou suavemente.

“– Certo. deixe-me ver os registros” – dizendo isso Meroveu se dirigiu à escrivaninha, abriu uma das gavetas e retirou alguns documentos – “O próximo navio...” - falando isso o velho senhor colocou um pequeno óculos no rosto e começou a examiná-los. Depois de alguns minutos olhou para seu convidado e disse – “você não chegou em uma boa hora rapaz, a maioria dos navios já partiu e os que ficaram só partirão depois do fim do inverno.”

Islade coçou a cabeça pensativo. Arriscou algumas soluções, mas logo depois achou improvável. Arriscou a última possibilidade – “Não existe nenhuma chance? Qualquer um já é uma boa opção para mim.”

“- Receio que não tenha muita escolha, mas se insiste. Ainda há um navio que pode partir esta semana, mas eu não o indicaria a um nobre como você, meu jovem” – sua expressão não indicava convicção.

“- Não entendo o que quer dizer meu senhor.”

“- O que quero dizer, é que o único navio que partirá antes do fim do inverno é o ‘Intrépido’. Um navio mercenário, que é comandado por um capitão sem lei. Saqueia navios de nobres por todo o reinado, mas recebe carta branca do imperador por serviços prestados a coroa” - seu rosto agora era vermelho de raiva.

“- Entendo. Mas mesmo assim tenho de tentar. O senhor sabe me informar onde consigo encontrar a sua tripulação?” – Islade se levantara.

“- Garanto-lhe meu jovem que não será uma boa estadia, mas já que inciste. Eles sempre barbarizam em Gorendill em uma taverna ao sul das docas. Chama-se o ‘Mastro Quebrado’”.

“- Muito obrigado senhor, sua ajuda me será de muita valia.”

“- Fico grato por ajudar. Adeus.”

Islade foi levado pelo mordomo até a porta. Agora tendo como seu destino o Mastro Quebrado.

domingo, 9 de novembro de 2008

Romance II

REVELAÇÕES
Julio "Julioz"

Capitulo – 1 “Caminho de casa” (continuação)


A luta recomeçara.

Os dois atacaram ao mesmo tempo desferindo uma serie de golpes com ambas as espadas. Enquanto um atacava o outro desviava, e assim alternadamente. Espadas se encontravam ocasionalmente. Os dois eram especialistas em esquivas, e faziam isso como uma arte. Randorill iniciara um movimento repentinamente, seu aluno recuou a tempo, e a lamina passou a alguns centímetros de seu rosto. O jovem desferiu uma estocada com as duas espadas, dando um passo a frente. O professor aparou com a arma da mão direita, deixando assim todo o corpo do aluno desprotegido. Em contra-ataque girou o corpo, acertando-o aluno no flanco com uma arma após a outra.

O jovem recuou alguns passos, ainda sentindo o peso dos golpes. Conseguiu se equilibrar com algum esforço, olhou para baixo e percebeu onde seu corpo tinha sido acertado. As duas marcas ficaram impressas em sua camisa, assim como a dor. Abaixou-se sobre um dos joelhos. Estava sem fôlego. Respirou longamente e sentiu dor. Uma de suas costelas devia estar quebrada.

“– Levante-se. Tenho que lhe acertar mais uma vez antes que desista – o professor parecia cansado, mas mantinha a postura perfeitamente ereta.”

“– Não acredita mesmo que eu vá desistir agora, acredita? - o jovem usou as espadas como apoio e se pôs de pé – Hoje vou lhe provar que posso vencer!”

“– Venha! – era Randorill, enquanto secava o suor da testa com a manga da camisa.”

Dessa vez, o avanço foi calculado. O estilo de luta usado pelos dois era propicio a defesa, mas quando no ataque, cobrava velocidade e resistência. A fadiga já começara a avançar, o ímpeto inicial cessara, estratégia tinha sido a saída adotada no combate.

O jovem saltou e desceu as espadas na vertical com força. O professor desviou as armas com as suas. O jovem estocou na altura do estomago e no ombro esquerdo, mas com um giro Randorill passou entre as laminas vermelhas já contra atacando. O aluno precisou se jogar no chão e largar uma das espadas para escapar. Ao tocar o solo, já se pôs em movimento rolando para esquerda evitando um ataque duplo.

O aluno recolheu a espada que soltara a tempo de usá-la para aparar. Conseguiu ficar de pé antes de se esquivar três vezes seguidas, abriu os dois braços e tentou cortar em direção ao centro. O professor apenas recuou um passo, e as armas encontraram somente o vazio. Aproveitando o impulso das armas o jovem desceu a espada da direita. Na diagonal. Randorill a evitou facilmente com outro giro já preparando o próximo ataque. Ao girar, confiante que seu ataque seria o ultimo, recebeu no centro do peito uma estocada fortíssima. Sua cota de malha quebrara no lugar do golpe. A tinta vermelha se transferia rapidamente para o tecido branco.

O professor parara pela segunda vez. Os anéis da sua cota de malha caiam aos montes. A armadura estava arruinada. Randorill embainhou as duas espadas, e soltou o nó que prendia a cota em suas costas. Retirou-a por cima da cabeça e a arremessou a esmo.

Cansaço, ansiedade e dor. Sentimentos partilhados pelos dois naquela hora. As espadas já apresentavam fissuras e arranhões, e a tinta vermelha estava chegando ao fim.

“– Dois acertos pra cada - o jovem falava com as espadas totalmente abaixadas – ainda acha que não aproveitei bem seus ensinamentos?”

"– Foi uma boa jogada, nada mais. Cuidarei para que o próximo ataque a acertar o oponente seja o desferido pelas minhas mãos". – provocou o professor.

“– Posso lhe garantir que não será!”

Com as espadas cruzadas a frente do corpo e andando lateralmente, o aluno voltou ao combate – Hoje, me sagrarei vencedor!

O combate terminaria nos próximos minutos. Caso o aluno conseguisse a vitória estaria livre para retornar para casa. Caso perdesse, deveria se preparar por mais um ano, antes de ter a chance de um novo combate.

Randorill imitara o gesto. A técnica dos dois era exatamente a mesma. Um erro cometido agora não teria volta. Os dois estudavam cada movimento, se aproximavam, fintavam ataques, mas não se tocavam.

Ele avançou com ímpeto impressionante. A fadiga deixou de incomodar. A juventude prevaleceria, a vontade prevaleceria, a ambição seria o ponto final. O jovem atacou por todas as direções, suas espadas no momento inicial pareciam furacões, tornados, fenômenos da natureza. O professor se assustara , estava sentindo extrema dificuldade para escapar dos golpes. Quase tinha sido tocado três vezes seguidas. Esperou o momento propicio e se jogou no chão. As laminas ferozes erraram por pouco. Randorill se levantou rapidamente, atacou seu oponente mirando-lhe as costas. O jovem por sua vez, de novo esperava o ataque. Mirou seu golpe no meio da espada adversária, o intuito não era o normal, desviar, ele queria mais.

As espadas se acertaram com força total. Dois ataques magníficos desferidos ao mesmo tempo. As duas vibraram nas mãos de seus donos. O impacto amortecera o braço do jovem. Ele piscou sem acreditar, nunca atacara com tamanha força. Olhou para o braço que doía e depois para a espada. Espanto. Ela jazia agora quebrada, o choque tinha sido enorme, sua lamina tinha sido mais requisitada na defesa. Rachou e explodiu em pequenos pedaços de ferro forjado, a metade de cima aguardava caída no chão, inerte. Seus olhos subiram em direção ao professor. Ele pôs-se em guarda como esgrimista e esperou.

“– Belo ataque meu rapaz. Para um pederasta como você, pode se considerar um grande feito. Pelo que vejo, terá de lutar em desvantagem.”

“– Vencerei com, ou sem espadas – provocava o aluno sem saber se acreditava nas próprias palavras – Sempre disse que podia vencer sem uma das mãos, hoje só te provarei que falava a verdade.”

“– Não lhe darei tal gosto. – e com isso enterrou a lamina de sua espada até o meio no piso frio – Lutarei a sua maneira!”

Avançaram e o combate reiniciou. Os ataques agora eram menos cuidadosos, o momento sugeria ousadia. A mesma espada que atacava tinha de defender. A luta com uma espada, sem escudos, penderia ao mais ousado. Randorill usava de inteligência, fazia seu prodígio defender os braços, as pernas e o tronco á todo momento, deixando-o assim sem chances para o contra-ataque. O aluno combatia bem, não atacava, mas estava se saindo melhor do que esperava. Defendeu-se por mais dois longos minutos e conseguiu seu primeiro ataque. A troca de golpes se tornara normal, intercalavam-se em defesa e ataque perfeitamente. Estranhamente, os dois sorriam.

“– Agora! – o jovem em um salto a frente surpreendeu o adversário, sua espada em um arco cortou o ar em direção ao ombro inimigo. O professor girou para lado esquerdo se esquivando por pouco. Ele atacou novamente com uma estocada, que o professor aparou com a espada.”

O combate continuou acirrado, o professor levava vantagem na experiência, o aluno na juventude. A variação de manobras era impressionante, cada golpe nunca era repetido. Nenhum dos dois ousava parar a essa altura. Voltar atrás não era uma opção.

Os ataques do aluno, não mais visavam seu combatente, Randorill percebera que sua espada se tornara o alvo. Defendeu-se por mais alguns minutos sem entender a estratégia adversária.

O jovem parou de sorrir. Estocou ameaçadoramente e recuou propositadamente. Aproveitando o espaço, o professor partiu ao ataque com a espada preparada. Levou a arma acima da cabeça, desceu-a com toda a força que lhe sobrava caindo na armadilha. O aluno não acreditava como seu simples truque não fora percebido. As longas partidas de xadrez, que jogara obrigatoriamente contra Randorill, tinham vencido a batalha.

Dera a impressão de descuido, mas sua verdadeira intenção só seria descoberta tarde demais. Contra o ataque do professor, revidaria igualmente. Levantou sua espada e rapidamente a fez descer. As laminas se tocaram no alto, novamente sentira seu braço adormecer, hesitou por alguns segundos, mas se manteve firme. Uma fissura prendia uma na outra como tinha previsto.Randorill sem perceber a gravidade de sua ação, colocou todo seu peso sobre a disputa. Passaram alguns segundos de puro silencio, e finalmente algo aconteceu. A lamina do professor começara a rachar, linhas aleatórias preencheram toda a espada. Um segundo estouro aconteceu, e os pedaços voaram.

Randorill, o professor de combate, que nunca havia perdido uma batalha na escola onde lecionava, despencou. A espada do aluno o derrubara, o golpe que destroçou sua arma o acertara em cheio. A tinta mágica tinha sido transferida totalmente a sua camisa. Uma mistura de tinta vermelha e suor, se espalhava por todo o tecido. O aluno sentiu euforia. Caiu de joelhos. Seu corpo não agüentaria nem mais um minuto de pé. Olhou o professor que levantava sem graça, fechou os olhos, abriu os braços e desmaiou.

O professor estava contente, em seu intimo sentia extrema felicidade. Aquela criança jovem e imatura que conhecera há cinco anos tinha mudado, mudado para melhor, tinha finalmente entendido. O treinamento excedera suas expectativas.

“ –Você venceu; o ciclo está completo; sua família o espera. Já pode se considerar um homem livre – Em seu rosto, um sorriso paternal – Volte para casa, Islade Valkair.”

domingo, 26 de outubro de 2008

Romance II

REVELAÇÕES
Julio "Julioz"

Capitulo – 1 “Caminho de casa”

Passos.

Esse era o único som audível em todo o corredor. O barulho ecoava forte na madeira, como se varias pessoas andassem lado a lado. O ruído vinha das botas de um homem. Andava decido com os punhos cerrados e o maxilar rígido. Seus olhos miravam apenas a saída sem ao menos reparar no resto. O corredor, por sua vez, não era muito longo, mas um tanto largo, e ia do salão principal ao lado de fora da mansão. Nele ficavam as passagens para as salas de aula. Era limpo e bem iluminado, decorado com quadros e estátuas, todas feitas pelo diretor. Esta era a Escola Rongald de Aventureiros, uma das melhores do ramo, e parte das principais atrações de Gorendill.

Seus olhos miravam apenas a saida sem ao menos reparar no resto. Ele sabia o que queria, e sabia aonde ir. Apesar de jovem seus objetivos, hoje, estavam mais do que definidos. Tinha olhos e cabelos negros, taços leves, boca de sorriso facil, corpo esguio e bem definido. Trajava uma camisa de linho branca, calças do mesmo material pretas e botas de couroo que vinham até a metade da canela.

Alcançou a saída e desceu as escadas de mármore que davam no quintal. Atravessou o pequeno jardim, passando por um caminho de pedras. No chão jaziam centenas de folhas que caíram ha quase três semanas com a chegada do outono. Já conseguia observar os contornos das armações de madeira em meio ás arvores. Alcançou um outro lance de escadas. Este marcava o inicio da arena, subiu e atravessou um modesto arco entre as arquibancadas. Admirou.

Ventava forte, as árvores ao redor de toda a escola balançavam. Folhas passavam voando a todo instante, se chocando nas construções e produzindo um baque seco. Azguer já começara a descer, faltavam quase duas horas para que Tenebra dominasse os céus. As arquibancadas estavam todas vazias. Fazia frio, pois o inverno batia à porta. Mas hoje ele não ligava. Esperava ansioso. Suas mãos transpiravam e sua boca estava seca. Caminhou até o centro da arena de treinamento. Sentia o frio na barriga, costumeiro antes dos combates. Passou a mão nos cabelos deixando-os apontados para cima. Cuspiu o pouco de saliva que conseguiu acumular tentando espantar o azar. Esperava há anos por esse momento, e ele finalmente havia chegado. Tinha certeza que estava preparado, mas não sabia ao certo o que esperar de seu professor.

Deu um giro de trezentos e sessenta graus procurando algum movimento. Nada se mexia. Mal fechara os olhos, e lembranças de muito tempo inundaram seu pensamento como uma enxurrada.

Lembrou dos treinos exaustivos. Lembrou das surras e lembrou da dor. Lembrou da primeira vitória e de como ficara feliz. Lembrou que depois dela, conseguiu obter o devido respeito dos outros estudantes, e de como as provocações cessaram rapidamente. Lembrou de que os treinos, a partir daquele dia mudaram, e que todos os seus esforços até ali lhe surtiam efeitos. Seus braços se moviam precisamente. Atacavam, aparavam e estocavam como se aquilo fosse normal à muito tempo. Suas espadas não bloqueavam ataques, apenas os desviavam. Seu corpo tinha adquirido incrível mobilidade e resistência. Enquanto seus adversários se cansavam, ele apenas dançava, fugia e os evitava. Seu pensamento agora era rápido, e ele podia prever muitos movimentos antes deles serem executados.

“– Desculpe o atraso. Acabei indo até seu quarto para me certificar que não estava escondido como um rato em baixo da cama," - o professor sorriu com os lábios chegando as orelhas - "fiquei realmente impressionado por ter vindo."

O jovem se virou rapidamente. Em sua direção caminhava seu professor. Era relativamente gordo, e mancava de uma das pernas. Estava vestido igual ao seu aluno, com exceção de uma rústica e fina cota de malha. Tinha duas espadas embainhadas e em uma das mãos carregava outro par. O professor estancou a apenas cinco passos do jovem e atirou-lhe as espadas. Ele as recebeu com destreza, segurando-as pelo cabo e com um giro, fez as bainhas aterrissarem a alguns metros atrás de si.

“– Já estava começando a acreditar" - rosnou o jovem - "que quem estava em baixo da cama era você, Randorill de Warton.”

“– Além do medo, ousa perder o respeito moleque! Vou ensinar-lhe uma lição" – ele apontou para uma das arquibancadas – "atrás daquela arquibancada você encontrara uma grande jarra de barro, ela esta cheia de tinta vermelha. Mergulhe suas espadas e volte até aqui, rapidamente.”

Ele caminhou pelo chão de terra batida até o local indicado, mergulhou suas espadas sem entender o significado de tudo aquilo. Ao retirá-las do jarro, tentou escorrer todo o excesso de tinta de volta para o recipiente. Em vão. Tentou novamente, mas sem melhores resultados. A tinta parecia presa na lamina, e o mais impressionante era que ela permanecia em estado liquido. Retornou ao centro da arena, onde Randorill o aguardava. Estranhamente suas duas espadas já estavam cheias da mesma tinta vermelha. Aos seus pés, aguardava jogada uma cota de malha semelhante a que ele mesmo trajava.

“– Pra você pirralho!" – disse o professor chutando a peça para o aluno.

A cota de malha foi jogada a alguns metros, levantando poeira por onde passava, até encontrar os pés do jovem.

O aluno a olhou com desdém e respondeu: “– Isso só serviria para restringir meus movimentos" -, falou enquanto chutava a cota de malha para longe - "lutarei sem proteção. Agora me explique as regras.”

“– Se quer tratar tudo isso como um jogo, tudo bem. A tinta onde mergulhou suas armas é mágica. Ela só sairá da sua espada caso encoste-a em mim" – ele levantou os dois braços mostrando as suas espadas – "Já a tinta das minhas espadas, só sairá caso eu encoste-as em seu corpo. Não deve se preocupar em ferir-me, as duas armas não têm fio nem ponta" – o professor apontou suas duas espadas para o aluno – "Vence a batalha quem conseguir três marcas no corpo do oponente, só não sendo valida a área da cabeça. Consegue entender as regras?”

“– Minha espada lhe mostrará minha resposta!”

Antes que pudesse terminar sua frase, o jovem já corria. Suas pernas se movimentavam altas e seus braços já estavam a postos para o ataque. O aluno ganhara terreno rapidamente, e em alguns segundos já desferia sua primeira seqüência de golpes. Randorill, apesar do corpo desproporcional e a idade avançada, se esquivava habilmente. O aluno atacava repetidas vezes intercalando as duas espadas em cortes e estocadas. Enquanto uma mão subia, a outra já estava em descida. O jovem se movia como um dançarino. Trançando as pernas, girava o corpo para um ataque mais forte, pulando e se abaixando para tentar acertar o alvo. O professor se esquivava com destreza. O jovem era ataque após ataque. Sua guarda agora estava baixa, totalmente aberta a qualquer investida.

Passaram-se apenas cinco minutos. á para os dois, se passara uma eternidade. O aluno tinha atacado todo tempo sem, no entanto, conseguir acerto algum. O professor era muito mais rápido do que qualquer pessoa pensaria, e só havia usado suas espadas quando só o movimento não bastava. Sua perícia era tamanha que o aluno chocara suas espadas contra as dele menos de dez vezes. O jovem ofegava e suas vestes já mostravam as marcas de suor. O professor ainda nem começara a transpirar.

"- Acha mesmo que está preparado?" – disse Randorill – "te ensinei como combater por cinco anos, e no dia do teu teste final, lutas comigo deste jeito" – ele balançava a cabeça em sinal de desaprovação – "Assim só me mostra que tudo que falei por todos esses anos sobre você era a mais pura verdade. Sempre achei que você levava meu treinamento como levava sua vida. Tudo em sua vida caiu em suas mãos, nunca precisou lutar por nada. Hoje te mostrarei que se quiseres terminar teu treinamento, terá de entender o real significado das coisas. "

“– Concordo com o que diz" - falou o aluno em resposta – "mas não posso aceitar que não levo seu treinamento a sério. Venho me dedicando ao máximo desde quando cheguei a Gorendill. Aqui fui humilhado e isolado até conseguir provar meu verdadeiro valor" – ele começara a gritar - "quando falas que nunca lutei por nada em minha vida, mentes, pois minha vida nesse lugar foi uma constante batalha, e só hoje poderei lhe mostrar que tudo isso não fora em vão.”

“– Se acha realmente isso, mostre-me e lute como te ensinei!" - era o professor quem agora gritava.

“– Prepar..." - a frase foi interrompida, as espadas se chocaram novamente, o professor quem atacava dessa vez. Tentava estocar o jovem a qualquer custo, um ataque após o outro, fazendo-o recuar quase até a borda da arena. O aluno sentiu as arquibancadas encostarem-se em seus calcanhares, e com um salto subiu no primeiro nível. Trocavam golpes que passavam perigosamente perto, as armas chiavam pelo ar fazendo a tinta vermelha parecer viva.

Randorill agora cortava, cortava como um camponês cortava o feno. Seus ataques eram fortes e o aluno foi forçado ao segundo nível da arquibancada. Quando o professor se preparava para continuar a perseguição degraus a cima, cometeu seu primeiro erro. Sem perceber abaixou demais as duas espadas deixando assim a parte superior de seu corpo exposta. O jovem percebera o erro e abusou de seu oportunismo. Com um salto magnífico, passou sobre o professor, acertando-lhe as costas na altura dos ombros e aterrissando com uma cambalhota as suas costas.

O combate parara por alguns instantes. Randorill se virou calmamente. Seu rosto mostrava claramente espantado. O jovem tinha um pequeno sorriso preso na boca. As camisas estavam agora ambas ensopadas. Os dois se olhavam sem piscar.

“– Prepare-se. Farei você pagar em dobro" - falou o professor.

“– Estou esperando "- respondeu desafiadoramente o jovem.

(continua)