quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Diário de um Escudeiro - 28

Décimo primeiro dia de Salizz de 1392

O dia de hoje foi a primeira vez que tive um contato mais prolongado com outros cavaleiros, e por isso mesmo, foi um dia atípico. As aventuras que meu avô contava para mim e meus irmãos, na hora de dormir, eram sempre cheias de glória, honra e amizade. Sua relação com seu senhor era quase fraternal.

Mas a realidade me parece ser muito diferente. A última coisa que vi neste dia, que permaneci mais tempo junto dos outros cavaleiros do deus Khalmyr, foram valores.

Da mesma forma que ontem, quando saímos da capital de Bielefeld, nossa comitiva foi engordando conforme iamos nos aproximando de Norm. Cavaleiros, clérigos, paladinos, comerciantes, de tudo um pouco. Todos rumando para Bielefeld. Todos rumam para o festival.

Os cavaleiros, quase todos de Khalmyr, seguem na frente, imponentes, vestes impecáveis, cavalos garbosos, senhores da comitiva. Logo atrás viemos nós, seus escudeiros e outros serviçais. Depois outros cavaleiros e paladinos, mais além outros servos dos deuses e, por fim, as carroças dos comerciantes.

Consegui fazer algumas amizades de ontem para hoje. Com quem mais criei afinidade foi Guillor, escudeiro de Sir Bernan Oldcrow. Este cavaleiro, segundo Guillor, é reconhecido como grande aventureiro, ou pelo menos o foi em tempos passados. Desde que todo seu grupo foi emboscado quase dez anos atrás, numa catacumba nas Montanhas Uivantes, quase na fronteira entre Portsmouth e Bielefeld, que ele mantêm-se fora de atividade. Guillor contou que os compromissos de seu senhor, desde que ele assumiu como seu novo escudeiro, resume-se à reuniões em grandes salões de festas e feiras aqui e ali.

Sir Bernan gosta de levar uma vida pacata e tranqüila, longe do perigo e do risco. Disse-me até que ele ganhou um certo peso com essa pouca atividade. Segundo ele, aos poucos, eu vou me acostumar também.

“- Muitos dos cavaleiros gostam de se manterem vivos, o que significa ficar longe das aventuras e perto das festas” – disse-me Guillor – “para muitos o título de cavaleiro trás uma série de responsabilidades com o divertimento e a festa dos grandes saraus”.

“- Mas isto não seria algo contrário ao modo de ser de um cavaleiro?” – repliquei.

“- Pelo contrário, meu novo amigo, isso é exatamente o que é ser um cavaleiro hoje em dia!” – respondeu-me com um ar de graça.

Lembro-me que naquele momento fiquei pensando e tentando entender o que isto significava na prática. Como um cavaleiro iria desejar estar longe da aventura e do campo de batalha, fugindo da possibilidade de ajudar alguém e de ser realmente prestativo? Isso não fazia sentido algum para mim. Khalmyr não poderia permitir isso. Tudo o que meu avô contara sobre seu senhor e suas aventuras juntos eram o que, então?

Outra coisa que descobri é a relação pouco amistosa que alguns cavaleiros – quase todos naquele caravana improvisada - tem com seus servos. Embora alguns sejam tratados de forma muito amistosa, muitos tratam seus ajudantes como verdadeiros animais. Num dado momento, na nossa parada para uma refeição, um cavaleiro esbofeteou seu escudeiro pelo simples fato de que ele havia esquecido algum detalhe de sua refeição. Muitos cavaleiros, que estavam juntos naquele momento, nada fizeram, nem mesmo um semblante de desaprovação. Ao meu ver não era uma atitude digna, principalmente para alguém que se diz seguidor de Khalmyr.

Na segunda parte do dia, antes desta parada noturna em que me ponho a escrever em meu diário, por todo o caminho, peguei dicas aqui e ali para tentar entender o que seria importante para eu saber. As estórias foram das mais variadas possíveis embora sempre me avisassem que dificilmente meu senhor me colocaria em perigo, muito menos ele mesmo.

Um velho, desconfio que era um comerciante, que dividia a fogueira conosco, ficou nos ouvindo por longo tempo até insinuar-se no assunto.

“- Cavaleiros de verdade são coisas raras nos dias de hoje meus jovens!” – disse o velho na forma de um resmungo.

Todos paramos nossa conversa para atentar o que ele dizia. Depois de perceber que havia recebido toda nossa atenção continuou.

“- Ainda me lembro da primeira caravana que segui, com meus produtos, para a grande feira do início do outono, que acontece junto com a cerimônia de admissão da Ordem da Luz” – ele sorveu um pouco de seu chá fumegante – “eram dias de ouro. Não faltava honra e glória em meio ao mar de estandartes das casas cavaleiresca da ordem. Sempre que encontrávamos um seguidor do deus da justiça sabíamos que estávamos sendo abençoados com sua luminosa presença. Mas não hoje.”

Ele terminou a última frase e simplesmente levantou-se e se dirigiu para seu cobertor onde sentou e ficou em silêncio. Nós ficamos em silêncio por uns bons instantes também. Eu passei pensando no que ele dissera, pois tinha pouca experiência. Os outros ficaram calados, tenho quase certeza, frente à uma incômoda verdade.

Acho que por ter entrado nesta vida muito recentemente o impacto foi menor. Mas acho que o comentário daquele velho foi direto como um soco no estômago.

De qualquer forma foi o sinal para irmos dormir.Amanhã será o grande dia. Estou ansioso.

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