quarta-feira, 9 de setembro de 2009

RPG em Debate

RPG de mesa vs RPG eletrônico

Nestes últimos dias vi em mais de um lugar, e no texto postado pela .20 (e em comentários do texto) foi um deles, a preocupação do RPG tradicional (de mesa) ser substituído pelo RPG digital ou eletrônico. Por coincidência li um artigo (que transcrevo em parte abaixo) que tem muita relação com o assunto.

“Estamos quase no limiar da primeira década deste novo milênio, anunciado cibernético, cansados de cotidiano. Hoje o mundo se divide em virtual e presencial. Até o lugar de ensino, caracterizado como um segundo lar, cada vez está mais distante, substituído pela tela do computador. Nem mais preciso são os fios ligados à parede, transformados num roteador, que busca sinais emitidos pelas centenas de milhares de satélites espalhados pelo espaço. Mesmo as artes vão ganhando o plano virtual, não sendo mais necessário ir ao cinema para ver um filme, diante da facilitação dos vídeos pela internet, ou a uma galeria, para percorrer as mais variadas tendências das artes, antes, plásticas, hoje, visuais. A música, com a vantagem da língua universal da melodia, há muito tempo que se utiliza dos meios virtuais, bem como da sua tecnologia para aperfeiçoamento. Esse é um sentido inexorável, irresistível, irreversível. As artes cênicas mantêm a exigência da presença do público para que exista. Sem público, não há função, repica o palhaço. A origem grega da palavra ‘cena’ remete a qualquer construção leve que serve de abrigo. É a presença que torna a construção uma morada. É nessa demora que surge a possibilidade da referência, da troca, ou seja, do relacionamento humano. O fator da exigência do público para que o teatro, o circo, a dança se tornem arte é que se estabeleça a transcendência dessa comunicação. Ao mesmo tempo, ‘cena’ quer dizer ‘o panorama’, a visão amplificada da situação, o fato distinguido” (Caco Coelho, Jornal Correio do Povo, 5 de setembro de 2009).

O texto de Caco Coelho centrava-se na preocupação das platéias de teatro perderem força, neste final de década, da mesma forma que outras platéias e apreciadores de diferentes tipos de representação artística, também tem diminuído. Mas, ao final, ele tranqüiliza à todos mostrando que diferentemente do que se imagina, pelo menos no caso do teatro e dança, isso não deve acontecer.

É fácil transferirmos esta preocupação para o mundo do RPG. Desde que começaram a aparecer jogos ditos “de rpg para computador” ou mesmo na internet, muitos tem vivido com o temor de que progressivamente o público migre das mesas para a frente das telas de televisores e computadores.

A Black Isle, desde o final da década de noventa, teve muito sucesso lançando jogos de computador com o selo dos produtos D&D. Foram incontáveis sucessos: Baldur’s Gate (I e II), Planescape Torment, Pool of Radiance, Ice Wind Dale (I e II) e Never Winter Night. Todos tiveram legiões de fãs que passaram centenas de horas jogando. Eu mesmo joguei a grande maioria deles mais de uma vez. Mais recentemente, na internet, fomos inundados por dezenas (no mínimo) de bons jogos “de rpg” on line de todo o tipo. Mais uma nova legião de fãs, agora na geração de jovens do início do século XXI.

Mas com todo o crescimento deste tipo de jogo de rpg, não considero que haja ameaça ao tradicional e bom rpg de mesa. No texto do Shido (na .20) ele dizia que um dos perigos era a facilidade que os jogos eletrônicos de RPG traziam ao nos facilitar a vida naquela enxurrada de regras e cálculos em que se tornaram muitos sistemas. Além disso, quem joga um RPG eletrônico, não precisa ficar dependendo da boa vontade para juntar um grupo de amigos, apenas uma ou duas vezes por semana, para levar seu jogo adiante. Acrescento à isso que os RPGs eletrônicos tem uma grande vantagem em nos apresentar incríveis e cada vez mais detalhados gráficos. Mas mesmo assim, com tudo isso, eles não passam de uma sombra dos tradicionais RPGs de mesa e de tudo o que ele representa.

Mas então, por que não haveria perigo para os RPGs tradicionais?

A resposta é simples. Antes de mais nada, o que um jogador de RPG de mesa encontra numa seção é a interatividade. Interatividade esta que nos enganamos ao pensar que representa a relação jogador-personagem (algo que o jogo eletrônico pode simular). A verdadeira interatividade do RPG de mesa está na relação jogador-jogador.

Seria impossível que um jogo eletrônico pudesse simular os prazeres do relacionamento e interatividade de um grupo de jogadores de RPG. São impagáveis as situações que cada um de nós já viveu numa seção de RPG de mesa. Conviver com aquele amigo que insiste em usar um goblin swashbuckler, ou com aquele outro amigo que insiste em tentar ter todas as perícias possíveis e acaba não conseguindo fazer nada durante o jogo. Como não se divertir com aquele jogador que mesmo tentando realizar uma proeza impossível, acumulando todos os tipo de penalidades, ainda consegue tirar um 20 quase matando o mestre do coração. Ou ainda aquele personagem em nível épico que consegue uma falha crítica ao tentar acertar um simples goblin manco e cego. Essas são situações que nunca teremos em nenhum RPG eletrônico.

Indo além. Outro elemento que sempre agradou os jogadores, e um dos motivos do sucesso do RPG pelo mundo, sempre foi a possibilidade de representarmos nosso personagem como se fossem nós mesmos e toda a incalculável possibilidade de improváveis caminhos que podemos assumir em meio ao jogo.

Por mais que um RPG eletrônico tente ele é limitado em sua estrutura. Ele possui um linha que impossibilita que fujamos das opções que ele nos apresenta. Os diálogos nunca passam de cinco ou seis opções sempre seguindo a programação prévia. No máximo podemos ir ou vir e decidir se faremos algo para responder nossa quest de uma forma ou outra.

Por fim, um elemento que é fundamental pela não possibilidade de o RPG tradicional perder seus jogadores para os eletrônicos está na imprevisibilidade das ações do grupo. Por mais que os mestres percam horas, dias, preparando a seção de jogo, sempre aparece um jogador, que para desespero do mestre, vai sugerir um caminho mirabolante e que normalmente não foi preparado pelo mestre.

Os jogos eletrônicos, como já dito antes, seguem uma linha básica e prévia. Por mais que tentemos ser ‘imprevisíveis’ não conseguimos. Ficamos presos a uma linha-mestra. Em jogos como Baldur’s Gate ou Never Winter Night, muitas alternativas nos são apresentadas, muitas situações nos são sugeridas, diálogos são possibilitados, mas sempre de forma limitada. Somos freados pela impossibilidade que o programador tem de vislumbrar todas as possibilidades (quase infinitas) que o jogo pode proporcionar.

E para não dizer que não falei dos ‘milhares de cálculos’, todos sabemos que existem mestres de sobra que adoram essa enxurrada digna de um doutor em matemática.

Por mais que um jogo de RPG eletrônico tenha impressionantes gráficos, um enredo mirabolante, faça milhares de cálculos facilitando a vida dos jogadores, mesmo com tudo isto, nada substitui esses elementos chaves do sucesso do RPG de mesa para seus adoradores.

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