segunda-feira, 13 de julho de 2020

Mestres de Zansara - Contos: Resistência na Escuridão


Mestres de Zansara
Conto: Resistência na Escuridão

Capítulo 1
Abaixo o Sabá dos Nove. As palavras escritas com tinta esverdeada ainda estavam úmidas na parede da casa da guarda que ardia em chamas. As labaredas altas clareavam a rua de pedra em quase toda sua extensão nos dois lados naquela noite sem luas. A gritaria e correria com o incidente mobilizaram a população de muitas ruas próximas. O amontoado de curiosos comentando e sussurrando era quase ensurdecedor. O trabalho havia sido bem feito. A atenção havia sido chamada.

A guarda tentava afastar a população enquanto alguns de seus conjuradores apagavam o fogo. Embora já fosse tarde demais para salvar qualquer coisa de dentro da sede da guarda daquele bairro, a intenção era chamar menos a atenção. As palavras de protesto também foram rapidamente apagadas com água e magia, mas os curiosos que já as tinham visto se encarregariam de disseminá-las, mesmo que sem intenção, nas conversas do dia seguinte, fosse na feira, fossem nas tavernas.

Qualquer perturbação na água e suas ondulações são impossíveis de controlar. Essa era justamente a intenção, provocar ondulações, mostrar movimento, espalhar um sentimento, tudo aquilo que pudesse trazer algum questionamento sobre o que realmente estava acontecendo dento da Confederação Arcana do Oeste.

Muitos daqueles que tinham apenas uma visão de fora consideravam a Confederação com um exemplo de sucesso e eficácia. A magia sendo utilizada para prosperar uma nação onde não haviam mais oposições mesquinhas e jogos políticos. Um lugar onde todos se beneficiavam das facilidades, do poderio, da grandiosidade do poder mágico. Um lugar onde os conjuradores eram adorados por fazer a vida de todos mais fácil.

Ledo engano. 

Raddaerik sabia bem disso. Embora não fosse um nativo da Confederação ele estava aqui à tempo suficiente para entender que aquilo que se imaginava de fora era muito diferente da realidade. Ele estava de pé junto à esquina, cercado de dezenas de moradores das redondezas que se amontoavam para ver o que estava acontecendo. Sussurros cruzavam por ele de forma agradável. Um incêndio pode se alastrar rapidamente, mas nada supera a velocidade de um rumor. Ele ameaçou um leve sorriso no canto de sua boa.

O vento frio da estação do gelo soprava pela rua e o calor agradável das chamas do incêndio provocado já não aqueciam mais, conforme as últimas labaredas eram extintas por magia. Ele se obrigou a enfiar as mãos nos bolsos do pesado casado e sentiu o desconforto de encostar e redescobrir sua braçadeira no bolso. Ela sempre o afetava sobremaneira. Como um simples pedaço de pano poderia causar tanto desconforto? Ele nunca entendeu. Mas ele sabia que não era o fato de ser uma braçadeira de pano, mas tudo o que ela representava. Aquela faixa era uma marca, uma mácula, um demérito imposto à ele por algo que era, assim como tantos outros. Um clérigo. A nação que todos lá de fora achavam ser tão próspera e equilibrada, fazendo da magia o combustível de sua prosperidade, marcava aqueles que não estavam dentro dos parâmetros da normalidade. Havia a magia certa e a magia errada aos olhos deles.

Ele segurou a braçadeira com raiva dentro do bolso e depois respirou fundo para se acalmar. Não queria chamar a atenção mais do que o necessário por andar pela rua à noite, embora toda a movimentação causada pelo incidente na casa da guarda tenha enchido as ruas nas proximidades. Isso também era um risco. Se alguém o reconhecesse e percebesse que ele estava sem sua braçadeira, uma denúncia poderia lhe fazer encontrar a morte abreviada nas mãos da lei. Por sorte aquela parte da cidade raramente era visitada por ele e numa cidade tão grande quanto Foz da Cúpula, a capital da Confederação Arcana do Oeste, o risco acabava por se diluir um pouco.

Algumas quadras e becos percorridos pela noite fria, pulando de escuridão em escuridão em um caminho despretensiosamente confuso, o clérigo para em frente de uma porta simples. Nada de especial nela ou no beco onde estava localizada. Após três batidas secas a porta se abre em um movimento silencioso, permitindo passagem para que ele ingressasse calmamente. Do lado de dentro um rosto carrancudo, mas conhecido, surgiu das sombras e rapidamente fechando a porta após ele passar e certificar-se de que era realmente o clérigo aguardado, retornando para a escuridão.

O ambiente fumacento tinha um forte odor entre ervas aromáticas e tabaco, tornando o caminhar pelo corredor inebriante enquanto se aproximava de vozes que conversavam adiante.

A aparência do ambiente era como de qualquer outra pocilga que vendia bebidas fortes e que não fazia muitas perguntas. Haviam muitas pelas ruas da capital atualmente, fugindo dos cobradores de impostos e das perguntas indesejadas. Normalmente um lugar pequeno para um grupo mais ou menos recorrente de clientes das proximidades. A aparência desta servia para isso mesmo – enganar desavisados.

Raddaerik atirou a pesada capa de lã sobre uma cadeira enquanto se jogava pesadamente em outra apoiando o rosto nas mãos. As noites de “ação” eram exageradamente tensas e ele sentida cada músculo de seu corpo rijo. Com os olhos fechados ele proferiu uma rápida prece de agradecimento ao seu deus, algo punível com a morte se aqui não fosse um local seguro. Tudo correra bem. O trabalho fora feito com sucesso e ninguém havia sido pego, pelo menos não que ele soubesse ainda.

Conforme ele foi abrindo os olhos lentamente e se acostumando com a claridade dos lampiões presos alto no teto, enquanto tentava relaxar os ombros, ele percebeu duas figuras o observando das cadeiras à frente. Ele nem ao menos as ouvira sentar e por isso mesmo é que elas estavam com ele na missão de hoje. Ele era o líder da ação e o suporte, caso necessário, mas elas eram as mãos que executariam, e executaram, as ordens.

Os seus rostos estavam sujos aqui e ali com respingos e manchas de tinta verde-escuro, mas seus sorrisos iluminavam a mesa, quase o fazendo não perceber a sujeira. As Irmãs Clic, como eram chamadas, eram Annabelle e Annalise, duas ladinas que pareciam novas demais para terem tanta experiência e precisão. O nome era devido aos pequenos sons e estalos que produziam quando estavam exercendo sua arte de abrir coisas que não deveriam ser abertas.

Quando elas chegaram no Lince Voador, como reforços de extrema qualidade segundo os informes, Raddaerik lembra de ter pensado que fosse alguma piada de sua amiga capitã. Ele se lembrou da insegurança em usá-las na primeira ação de campo e do quão satisfatório fora o resultado final depois da missão concluída. Elas se tornaram um fator preciso no grupo.

Você está um caco, Rad”, disse Annabelle sorrindo. “Você tem se acalmar, nós dissemos que seria moleza e foi” completou Annalise.

O clérigo respirou fundo. Manter-se calmo era algo que ele não costumava fazer desde que colocara os pés dentro da Confederação Arcana do Oeste. Sua chegada à essa nação perdida do mundo se deu depois que muitos de seus irmãos de oração começaram a relatar os horrores que aconteciam por aqui com outros clérigos. Quando ele decidiu peregrinar por essas terras ela imaginava uma perseguição religiosa como tantas outras que aconteciam e aconteceram ao longo do tempo e que precisavam apenas de palavras iluminadas e um pouco de diplomacia. Errado. Era mais do que isso. Era a imposição violenta de superioridade de um grupo, impondo inclusive a morte para quem não se mantivesse “em seu lugar”.

Ele ainda se lembrava do que teve que passar na fronteira, sendo interrogado e marcado com uma braçadeira para que pudesse ser melhor controlado. Em nenhum outro lugar acontecia isso. E quando começou a andar pelo reino, rumo à capital, ele percebeu que as coisas eram ainda piores do que as notícias escapavam pelas fronteiras. Havia um processo deliberado de exclusão baseado na magia. A magia era o fiel da balança para mostrar se você era, no final das contas, um membro digno da nação ou apenas um fantasma. E não toda a magia – apenas algumas vertentes dela.

Raddaerik foi tirado de seus pensamentos quando canecas de vinho quente foram colocadas na mesa junto de algo para comer. Jared puxou uma cadeira ao lado do clérigo e olhou bem para ele de forma séria – “Você está um caco, Rad”.

Muito engraçado crianças... vocês combinaram isso ou estou com pior aparência do que imaginava” respondeu em tom de brincadeira o clérigo.

Sim, combinamos, mas não deixa de ser verdade!” soltou Annabelle antes de beber um longo gole do vinho. “Deu tudo certo, ninguém foi pego, estamos inteiros... vamos beber à isso!

O clérigo apreciava a falta de preocupação deles. Ao mesmo tempo à temia. Eles não tinham visto o que ele já fora forçado a ver. Eles mesmos não corriam tanto perigo, se fossem pegos, quanto ele e seus iguais. Na Confederação, ser um clérigo era um crime maior do que roubar mil cofres. A meritocracia do pensamento dos governantes locais, da aristocracia conjuradora dessas terras, escondia crueldade e ironia. A crueldade de impor mão de ferro sobre quem não se encontrava dentro do grupo ‘superior’ e ironia por simplesmente fazer o mesmo que os governantes anteriores faziam, mas com alvos diferentes.

Mas vocês estão certos” disse Raddaerik empunhando sua caneca e escondendo o temor - “vamos brindar... embora devagarinho, vamos fazer a diferença.” Ele sorveu um grande gole e comeu bom pedaço de queijo com pão.

Depois de alguns momentos de conversa onde as irmãs contaram como fizeram tudo e Jared comentava de suas aventuras em outra ação do grupo, mas fora da cidade, Raddaerik interrompeu com um tom mais sério. “Essa semana teremos um reunião com outros de nossos grupos, fiquem atentos às movimentações pelas ruas e alertas para quando avisarmos do local da reunião. Sempre que reunimos tantos membros o perigo é redobrado. Mantenham os ouvidos atentos e os olhos abertos. Não queremos acabar como os nossos saudosos amigos das montanhas que forma pegos desprevenidos... que os deuses os guardem!”

Todos fizeram um brinde respeitoso em silêncio.

Nota: Zansara é um cenário compatível com Pathfinder 2e e é lançado pela Editora New Order. Além da série de contos a Confraria de Arton também material autoral para o cenário com O Lince Voador (Aqui).