domingo, 8 de fevereiro de 2026

Heroes of Cerulea - Resenha

 Heroes of Cerulea
- Resenha -

 

Não é novidade que um novo segmento de RPG tem se direcionado para adaptação de franquias de jogos de computador para o RPG de mesa, buscando um lucro relativamente mais fácil, e valendo-se do fluxo crescente de jogadores nessa direção. O resultado tem sido alguns jogos minimamente decentes, mas ainda jogos que parecem meras tentativas de adaptar uma determinada estética de um jogo ao estilo de outro jogo, independentemente de isso fazer algum sentido. 

Nessa tradução, muitas vezes perdemos a essência ilusória que faz um ótimo jogo de computador se destacar dos milhões de outros pixels que se movem na tela. Você pode ouvir pessoas falando sobre como os jogos de tabuleiro oferecem uma liberdade que os jogos de computador jamais conseguirão alcançar, mas, frequentemente, são justamente essas limitações, a lógica interna peculiar do mundo de um jogo de computador, que atraem as pessoas.

Então, chegou Heroes of Cerulea, que está sendo trazido ao Brasil pela Tria Editora e que entrara em financiamento coletivo na próxima terça-feira (10/02).

Heroes of Cerulea, da editora sueca Bläckfisk, adota uma abordagem completamente diferente. Embora não seja um jogo licenciado propriamente dito, desde o design do cartucho de NES do próprio livro, fica claro que se trata de uma carta de amor aos primeiros jogos da série Legend of Zelda e afins. Heroes of Cerulea é o RPG de mesa mais old school que você pode encontrar, tentando resgatar o Zelda de 8-bit que você se lembra. Já na proposta vemos muito disso. Há um vilão que fez algo terrível quebrando o segredo do ouro mágico e precisa ser derrotado em quatro masmorras. Sim, esse é o Legend of Zelda que eu joguei, me lembro e amei! 

Felizmente, para nós, em vez de tentar encaixar Link à força em uma aula de RPG mal disfarçada, o designer do jogo, Lucas Falk, optou por abraçar tudo o que havia de especial naquelas aventuras originais de 8 bits que marcaram tantas crianças nos anos 80 ( ne meu caso, um adolescente nos anos oitenta). 

Em Heroes of Cerulea, você joga com uma das cinco classes, desde o Elfo, claramente semelhante ao Link, até o povo-pássaro Avian e os Geons, semelhantes a rochas. Os personagens têm três atributos: Força, Bravura e Intuição, entre os quais você distribui valores de 3, 2 e 1. Força abrange ações físicas, como ataques; Bravura abrange defesa e ações físicas, como escalar; e Intuição abrange ações mentais, como ataques à distância ou comunicação. Ao realizar uma ação um pouco mais complicada, você rola um número de dados de quatro lados (d4) igual ao atributo correspondente. Resultados um e dois são ruins, enquanto resultados três ou é sucesso com um custo, e quatro é sucesso absoluto. Se você rolar dois ou mais dados em uma ação, considera o resultado de maior valor. Se rolar múltiplos quatros, você obtém maiores chances de sucesso. Força abrange ações físicas, como ataques. Bravura abrange defesa e ações físicas, como escalar. E Intuição abrange ações mentais, como ataques à distância ou comunicação.

Os combates são um capítulo à parte. Ele é interessante, pois é muito parecido com Numenera. Os personagens dizem o que farão, enquanto o mestre diz o que os monstros farão. E SOMENTE os jogadores rolam os dados. Um monstro ataca você e você quer revidar? Role Bravura para a defesa e Força para o ataque. Bravura deu três? Você e o monstro sofrem um golpe. Tirou dois quatro no contra-ataque e o monstro sofreu dois golpes, passando a estar morrendo.

Quanto à proposta narrativa, em vez de história aberta e interminável, onde sessões inteiras podem ser gastas decidindo o que fazer de completamente irrelevante para a trama principal do jogo, Heroes of Cerulea vai direto ao ponto. O Rei das Sombras tomou a Cidadela Cerúlea, uma situação que, francamente, não será tolerada, e por isso você precisa visitar três masmorras diferentes para encontrar as três peças do MacGuffin do jogo, a Trindade. Depois de obtê-la, é hora de visitar o Rei e derrotá-lo.

As masmorras são exatamente como você imagina: buracos sem sentido no chão, repletos de esqueletos, polvos, gosmas e paredes suspeitamente quebradas, prontas para serem explodidas e revelarem baús de tesouro. Há estátuas que precisam ser giradas em direções específicas para abrir portas magicamente, e plataformas que devem ser pisadas em uma determinada ordem para revelar uma chave. Os NPCs, quando você os encontra, são obcecados por uma única coisa e se recusam a falar sobre qualquer outra coisa. Além disso, por algum motivo, muitos deles decidiram montar lojas dentro das masmorras, vendendo itens como bumerangues ou recipientes de coração (HP).

O comprometimento com a proposta é grande. É de se suspeitar que, se o Legend of Zelda original não fosse um dos poucos jogos de NES que permitia salvar o progresso, Falk teria eliminado essa função também de Heroes of Cerulea. Combinado com a arte pixelada simplesmente deslumbrante que permeia todo o livro, temos um dos jogos mais estranhos e encantadores que jogamos nos últimos tempos.

Provavelmente, o aspecto mais surpreendente do jogo é que, embora você seja incentivado a imprimir e recortar mapas de salas para usar na mesa enquanto explora, a ação em si se desenrola no TEATRO DA MENTE. Os sprites pixelados do livro seriam ótimos marcadores de cartas e movê-los sobre um mapa pixelado seria totalmente condizente com a proposta do jogo. 

Algo que posso imaginar facilmente é que Heroes of Cerulea combina muito bem com geradores aleatórios de masmorras (sejam digitais, dungeons dices ou montagem de masmorras por cartas), tornando o jogo, à cada nova sessão, algo totalmente inédito. De qualquer forma você também é convidado a criar suas próprias masmorras, já que no livro estão inclusas dicas simples, porém eficazes, para criar suas próprias masmorras de 8 bits rapidamente e do zero.

Isso vale para a história também. Não se engane de imaginar que é uma história curta ou simplista. Dentro das masmorras é que acontece a magia e dentro dela podemos colocar o que quisermos. De vários níveis a comunidades, de side-quests a cidades. Lembre de tudo o que você já encontrou e vivenciou nos saudosos jogos 8-bit daquela época. Como bom inventou de “coisas” em RPG, fico imaginando a quantidade de elementos que podemos criar para ampliar a experiência para além do que a leitura dessa resenha pode fazer parecer.

Com seu RPG anterior, Blood Feud, um jogo sobre masculinidade tóxica nas culturas vikings, Falk mostrou que era capaz de criar jogos que desafiam muitas das convenções do gênero e não tem medo de abordar temas difíceis. Sendo assim, é surpreendente e divertido vê-lo se soltar aqui e criar algo onde, às vezes, uma água-viva flutuante é apenas uma água-viva flutuante. Quem sabe, talvez haja alguma mensagem profunda escondida aqui, mas se houver, certamente está muito bem escondida do que os vários baús de tesouro abandonados pelo jogo.

Então, se você e seu grupo são fanáticos pelo que tem de melhor no estilo NES/Zelda e assemelhados, se querem algo mais simples e enxuto, se buscam a experiência tanto nostálgica como atual, se desejam adicionar algo extremamente divertido e muito diferente à mistura, Heroes of Cerulea pode ser exatamente o que vocês procuram.

Eu recomendo... não se arrependerão.

 

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