terça-feira, 20 de maio de 2008

Diário de um Escudeiro - 10

Décimo sétimo dia de Cyd de 1392.

Estou confuso. Queria que meu avô estivesse por aqui para me dar alguma luz. Algo muito errado aconteceu hoje, à não ser que eu tenha “muito” o que aprender.

Fui acordado muito cedo com uma gritaria danada. A estrebaria fica bem ao lado da taverna. Com os primeiros raios de sol acordei escutando os berros do taverneiro chamando – “Lis!!”. Ele repetia como se estivesse procurando por alguém. Desconfiei que fosse a filha dele.

Os gritos continuaram por algum tempo. Neste meio tempo eu fui levantando de minha cama improvisada e arrumando minhas coisas. De repente os gritos cessaram e logo foram seguidos por um choro de mulher com lamentos que eu não conseguia distinguir.

Corri para a taverna pensando se poderíamos ser úteis em qualquer problema que houvesse já que meu senhor é um cavaleiro. Logo que entrei me deparei com meu senhor frente-a-frente com o taverneiro em uma acalorada discussão.

“- Como o senhor teve coragem? Como?” – lamentava a esposa do taverneiro com os olhos encharcados de grossas lágrimas.

“- O que o senhor tem na cabeça?” – gritava o taverneiro que mesmo com um semblante de raiva não conseguia esconder as lágrimas.

Na escada, sentada em seu topo, estava a menina que na outra noite me levara o jantar. Ela estava ainda com roupa de dormir e com o cabelo desgrenhado. Seu olhar perdera o brilho de ontem. Sua bochecha estava vermelha, não de um rubor juvenil, mas decorrente de uma possível agressão. Ela deveria estar ferida de algum modo, pois haviam pequenas manchas de sangue em suas vestes, próximo à cintura. Mas seu olhar foi o que mais me surpreendeu. Parecia um olhar sem vida.

Pensei em correr pela escada para ver se poderia ajuda-la, mas os dois homens discutiam bem no início da escada me obstruindo a passagem.

“- Ora, ora... não fique tão bravo assim meu caro. Pense que lhes concedi um favor honrando sua família com meu ‘mais puro interesse’” – disse meu senhor terminando de arrumar as vestes – “Além do mais isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.... melhor comigo do que com qualquer criador de cavalos das redondezas, não acha?”

Não conseguia entender o que estava acontecendo. O quadro formado na minha frente não me fazia sentido. Tentava entender se meu senhor é que tinha feito aquilo.

“- E quanto à honra dela, como fica?” – gritava a senhora esposa do taverneiro.

“- Querem honra maior do que ter sido a pessoa que desabrochou tal flor. Ela agora pode gritar isso aos quatro ventos pois só lhe trará mais status” – meu senhor disse apontando o dedo no nariz do taverneiro – “aliás, o único que tem honra por aqui sou eu. Vocês têm idéia de com quem falam?” Depois de dizer isso Sir Constant se virou para mim pedindo para arrumar os cavalos pois estávamos com pressa.

No momento em que respondi vi o taverneiro puxar das costas uma adaga gritando “- Vais ver o que é honra...”

Mas quase como um raio, e não sei como ele percebeu, a espada de Sir Constant riscou o ar da taverna atingindo o pai de forma certeira. A mão jazia no chão ainda segurando a adaga. Aos poucos o taverneiro foi caindo de joelhos devido à dor. Sua esposa soltou um grito rouco e correu em seu auxílio tentando atingir meu senhor. Mas apenas com um tabefe ele a jogou para longe.

Eu estava paralisado. Era como se o tempo estivesse parado. A menina no topo da escada permanecia inerte como se nada houvesse acontecido.

“- De graças à Khalmyr por só ter perdido uma mão” – sussurrou o cavaleiro antes de virar-se para mim – “Vamos!”

Arrumei os cavalos o mais rápido que pude e os levei para fora da estrebaria. Lá de dentro eu ainda escutava os gritos de dor do pai e os soluços da sua esposa. Sir Constant estava sentado num toco de árvore limpando o sangue de sua espada numa peça de roupa arrancada do varal. Seu semblante era calmo como se nada tivesse acontecido.

Mesmo com todos os acontecidos da manhã ele passou o dia muito alegre e bem disposto. Nem parecia a mesma pessoa. Não parava de falar. Até a noite, agora pouco, ele continuava a conversar comigo sobre tudo um pouco.

Confesso que não escutei quase nada. Apenas as imagens desta manhã ocupam minha mente. E mais e mais perguntas e dúvidas vão se acumulando.

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