sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Confraria's Plots 4 - Amazing Grace


A inspiração para uma aventura pode vir de qualquer mídia. A inspiração pode ser do início da aventura, do meio, ou mesmo do final. E não há problemas nisso!

Confraria's Plots - Amazing Grace
- tudo pode começar pelo fim -

Funerais são sempre impactantes, não importa em qual circunstância, mas este em especial era ainda mais. O grupo de aventureiros estava vivo, mas isso não diminuía a dor, ou a revolta com os deuses. Alguns os poderiam ver como heróis. Mas eles não se consideravam. Outros os poderiam ver como sortudos. Mas eles não consideravam aquilo sorte. Eles se consideravam apenas sobreviventes. A música entoada por todo o percurso da procissão que levava os mortos era triste, embora transparecesse honra, respeito e comunhão com a dor.

À frente e ao lado das carroças que levavam os caixões a população caminha solene e em silêncio no ritmo moroso dos tambores enquanto o sopro das gaitas soasse ao ritmo das lágrimas. Ao fundo, atrás de todos, cabisbaixos, o grupo de aventureiros marchava ainda tentando entender se onde haviam errado para que tivesse ocorrido tantas mortes. Por mais que todos dissessem que se não fosse por eles tudo teria sido pior, eles ainda se sentiam culpados.

PLOT
Muitas são as formas de sermos inspirados para uma nova aventura e nem sempre isso acontece linearmente. Algumas vezes imaginamos um plot que pode estar lá no meio de uma aventura. Outras vezes somos inspirados por um acontecimento que dará início à uma campanha. Algumas, como neste caso, podemos imaginar tudo a partir de um final. Com a canção Amazing Grace foi exatamente assim. Este é um caso verídico que poderá, quem sabe, ajudar à percebermos que os plots podem nascer de todo o lugar e nas mais variadas circunstâncias.

Certa vez me deparei com uma versão de Amazing Grace, interpretada pela orquestra do maestro holandês André Rieu. Naquela versão a música começa centrada em uma flauta com a orquestra a acompanhando suavemente. Em seu segundo movimento agregava-se à melodia um gaita de fole entoando todo o movimentos junto à flauta. No terceiro e derradeiro movimento, de forma inesperada, juntava-se à melodia toda uma orquestra composta por um sem número de gaitas de fole dispostas ao longo de toda a arena onde o show acontecia, cadenciados por alguns instrumentos de percussão como numa marcha. Simplesmente lindo.

Logo que a música começou uma imagem se reforçou em minha mente tal qual um filme. Um cenário bucólico de fantasia medieval. Ambiente escuro. Um funeral. Uma carreira de caixões sendo transportados por uma floresta enquanto a melodia era entoada por músicos dispostos espaçadamente por todo o caminho. Ao redor algumas pessoas, seus familiares a amigos, seguiam respeitosamente cadenciados pelos tambores. Quem eram os mortos? Eu não sabia. Poderiam ser os aventureiros que haviam dado sua vida por uma causa. Poderiam ser desconhecidos ou amigos pelos quais os aventureiros haviam lutado. Eu só tinha certeza de uma coisa - aquele funeral era o ponto final da aventura.

Eu havia imaginado um final e não um começo. Aos poucos toda a cena foi se construindo do fim para o início, até que tudo fez sentido.

Isso poderia ter se tornado uma aventura ou mesmo uma campanha. Não há mal nenhum em imaginarmos uma aventura de RPG já sabendo seu final. Muitas aventuras começam assim. Os aventureiros sabem que o resultado será aquele, mas insistem em ir até o fim por honra ou por princípios. Poderia ser este o caso aqui.

No meu caso isso se tornou todo um plot de um dos contos da Confraria de Arton - Diário de um Escudeiro.

No conto o ainda aspirante à cavaleiro, e protagonista da série de aventuras, está em Tollon (em Arton, dentro do cenário de Tormenta) quando se vem obrigado a proteger uma vila contando apenas com alguns de seus colegas aspirantes e uma série de aldeões sem treinamento. A ajuda chega tarde demais, devido à soberba de alguns superiores, e muitos perdem a vida em meio ao longo combate. Eles conseguem salvar uma grande parte da vila, mas à um enorme preço, pago com vidas inocentes e sangue.

Muitos plots podem nascer de uma melodia assim. Ela pode ensejar o mestre à imaginar nesta música um grande conflito que está por vir, enquanto as gaitas de fole entoam a oração dos guerreiros e aventureiros aos seus deuses. Ela também pode inspirar à um funeral, mas um funeral que será o ponto de partida para que os aventureiros busquem justiça ou mesmo vingança.

Desejei apresentar essa música pois desejava deixar claro que a inspiração pode vir de qualquer detalhe, de qualquer mídia... De todo o lugar.


João Eugênio C. Brasil


Amazing Grace (1779)
É sabido que o autor desta melodia é o inglês John Newton. Mercador de escravos, ele transportava, africanos capturados entre guerras tribais e negociados pelos vencedores com a Inglaterra. Conta a história, não oficial, que esta melodia era entoada pelos escravos nos navios negreiros em uníssono, já que eles não podiam gritar ou falar. John Newton teria adaptado a melodia e a  escrito. Conta a história que após sobreviver à um naufrágio ele teria tornado-se cristão e estudado para ser pastor, tentando redimir-se seus atos. A melodia foi adotada como hino religioso cristão e por muito tempo a música ficou sem letra, adotando inúmeras interpretações. É considerada uma das mais populares das ilhas britânicas e dos Estados Unidos. Particularmente, nos Estados Unidos, ela se tornou como um hino contra a violência vivida pela escravidão. Modernamente foi interpretada por Aretha Franklin, Elvis Presley, Willie Nelson, Celtic Woman, Andre Rieu, dentre outros.






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