terça-feira, 21 de julho de 2026

Vampiro de Mil Anos - Resenha

Vampiro de Mil Anos - Resenha

 

A Tria Editora inicia hoje mais um financiamento coletivo de RPG. O RPG da vez é Vampiro de Mil Anos (Thousand Year Old Vampire) - LINK. Eu tinha programado lançar essa resenha ao longo do dia de início do financiamento. Como de costume, a meta inicial precisou de apenas pouco mais de uma hora para ser atingida – um costume recorrente dos financiamentos da Tria. Como sempre, quando estou terminando de escrever a resenha, já temos a garantia de mais um incrível título de RPG garantido para estar, em breve, em nossas prateleiras.

Lembro de a primeira vez que falei desse RPG aqui na Confraria. Era agosto de 2020, e ele surgia como um dos vencedores do ENnie Awards daquele ano. Naquela edição Thousand Year Old Vampire levou simplesmente a medalha de ouro nas categorias Best Production Value e Best Rules, além de receber a medalha de prata como Produto do Ano, perdendo apenas para Mörk Borg. Ou seja, Vampiro de Mil Anos chega sem deixar dúvidas de qualidade e solidez. Eu me perguntava se um dia eu teria a chance de o ver em português. O dia chegou. Vamos conhece-lo um pouco mais.

Thousand Year Old Vampire é um RPG para um jogador destinado a um público adulto. Essa destinação, porém, não se deve à violência ou algum elemento gore, mas sim à abordagem de temas complexos como envelhecimento, perda, desespero, raiva e outras emoções sombrias que podem se apoderar da vida em seus altos e baixos.

O jogo se desenrola através de uma série de perguntas, que você pode resolver com o nível de detalhe que desejar. O registro principal do jogo são suas Memórias - sua resposta a cada pergunta lhe dá uma Experiência, uma pequena linha de texto que resume sua história relacionada àquela pergunta. Você associa essas experiências a memórias, conjuntos interligados de até três experiências. Por exemplo, um vampiro carregava consigo um pingente de prata que ganhou em sua vida mortal durante a criação do personagem. Ganhá-lo foi a primeira experiência, ter sido roubado por outro vampiro foi a segunda e lutar contra esse vampiro pelo pingente foi a terceira. Juntas, essas perguntas formam sua história, e você avança e retrocede entre elas através de rolagens de dados (resultado de d10 menos resultado de d6). Cada pergunta tem sua própria página. Se você parar na mesma pergunta uma segunda ou terceira vez, você vai para uma segunda ou terceira pergunta na mesma página, que se baseia na primeira. Alguns dos desfechos mais dramáticos estão escondidos nessas perguntas secundárias e terciárias mais aprofundadas, já que você está mergulhando em um ponto específico da trama para ver como ele afeta seu personagem.

Com o passar dos anos, você se esquecerá de memórias (respostas a estímulos). Isso o incentiva a mudar drasticamente sua personalidade, à medida que memórias essenciais anteriores são substituídas por outras que o levam a caminhos inesperados.

Existem algumas estatísticas básicas. A maioria envolve simplesmente o controle de perícias, NPCs e recursos. Mas as regras são bem simples e o jogo foi concebido como uma experiência narrativa.

O jogo incentiva o uso de um computador ou caderno para registrar as respostas, mas você também pode simplesmente recitar suas respostas mentalmente enquanto lê as instruções.

Atualmente os jogos de RPG para um jogador (ou simplemente RPG solo) são um gênero consagrado e ganhando cada vez mais adeptos. E embora este seja um RPG para um jogador, ele também é algo mais. É solitário. Inóspito. E muitas vezes (embora nem sempre) desolador. O jogo deixa claro que, se você tem tendência à depressão, talvez não seja o jogo ideal para você. No entanto, se você gosta de explorar as nuances de um personagem, sua moralidade e as consequências disso, há muito o que descobrir.

Mas vamos deixar, ele nem sempre é sombrio. Ele pode terminar com uma nota inesperadamente esperançosa, por exemplo, ou muitos momentos de humanidade comovente. Mas também há muitos momentos em estamos na corda bamba, com nossa jornada prestes a ser bem menos redentora e esperançosa. Alguns lances de dados azarados e estamos escrevendo uma história profundamente niilista em vez de uma homenagem sincera à amizade. Mas ambas as possibilidades existem.

O RPG (“convencional”) é sobre descoberta. Normalmente, isso acontece por meio de uma colaboração semi-improvisada entre os jogadores e um Mestre. Mas sem um MJ ou outros jogadores, você descobre a história por conta própria em Vampiro de Mil Anos.

E é uma verdadeira descoberta, porque você não conseguirá prever o que vai acontecer. Mesmo que inocentemente nos preparemos antecipadamente – algo comum quando nos aventuramos em uma nova proposta de RPG - tudo isso vai por água abaixo quando começamos a realmente vivenciar a experiência de Vampiro de Mil Anos.

Algumas pessoas já colocaram esse RPG como algo que oscila entre um RPG como imaginamos e um exercício de escrita criativa, tendo uma separação tênue entre esses dois pontos. Isso não é um elogio nem uma crítica, mas sim uma observação. O jogo me parece um pouco mais meditativo do que eu imaginava no início

Um dos pontos que nem sempre vemos abordados é que a história que vamos construir não precisa necessariamente passar no mundo real. Podemos inseri-la em qualquer cenário que tenhamos desejo e que conhecimento para a longa jornada de séculos e séculos. O livro incentiva você a explorar a história por meio de suas sugestões, ou a imaginar o futuro... então, por que não inserirmos nossa história no nosso cenário preferido. O que quero dizer quando afirmo isso é que a premissa é flexível. E isso confere ao jogo longevidade e capacidade de ser jogado várias vezes.

Por fim...

Gosto de boas histórias e de reflexões sobre a condição humana... e também gosto de escrever e por tudo isso apreciei deste jogo. Eu diria que é uma delícia, mas essa não é a palavra certa. É atencioso e paciente com você de uma forma que muitos jogos não são. Ele permite que você defina seus limites, escolha seus temas e os acompanhe até suas conclusões lógicas — às vezes, sóbrias —, tudo isso sem recorrer ao choque e outros truques baratos de alguns jogos supostamente "adultos". Você pode ter choque, violência, sangue e todo tipo de coisa em suas sessões, se quiser. Mas eles não são impostos a você; em vez disso, você é convidado a refletir sobre as motivações mais profundas por trás de seus personagens conflituosos e monstruosos. Essa é a tarefa mais difícil, mas, no fim das contas, a mais recompensadora.

[Resenha realizada com a leitura do RPG em sua versão em inglês, além de resenhas dos sites Veritastabletop e Bumblingthroughdungeons]

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