Vampiro de Mil Anos - Resenha
A
Tria Editora inicia hoje mais um financiamento coletivo de RPG. O RPG da vez é Vampiro de Mil Anos (Thousand
Year Old Vampire) - LINK. Eu tinha programado lançar essa resenha ao
longo do dia de início do financiamento. Como de costume, a meta inicial
precisou de apenas pouco mais de uma hora para ser atingida – um costume recorrente
dos financiamentos da Tria. Como sempre, quando estou terminando de escrever a
resenha, já temos a garantia de mais um incrível título de RPG garantido para estar,
em breve, em nossas prateleiras.
Lembro
de a primeira vez que falei desse RPG aqui na Confraria. Era agosto de 2020, e
ele surgia como um dos vencedores do ENnie Awards daquele ano. Naquela edição Thousand
Year Old Vampire levou simplesmente a medalha de ouro nas categorias Best Production
Value e Best Rules, além de receber a medalha de prata como Produto do Ano,
perdendo apenas para Mörk Borg. Ou seja, Vampiro de Mil Anos chega sem deixar
dúvidas de qualidade e solidez. Eu me perguntava se um dia eu teria a chance de
o ver em português. O dia chegou. Vamos conhece-lo um pouco mais.
Thousand
Year Old Vampire é um RPG para um jogador destinado a um público adulto. Essa destinação, porém, não
se deve à violência ou algum elemento gore, mas sim à abordagem de temas
complexos como envelhecimento, perda, desespero, raiva e outras emoções
sombrias que podem se apoderar da vida em seus altos e baixos.
O
jogo se desenrola através de uma série de perguntas, que você pode resolver com
o nível de detalhe que desejar. O registro principal do jogo são suas Memórias
- sua resposta a cada pergunta lhe dá uma Experiência, uma pequena linha de
texto que resume sua história relacionada àquela pergunta. Você associa essas
experiências a memórias, conjuntos interligados de até três experiências. Por
exemplo, um vampiro carregava consigo um pingente de prata que ganhou em sua
vida mortal durante a criação do personagem. Ganhá-lo foi a primeira
experiência, ter sido roubado por outro vampiro foi a segunda e lutar contra
esse vampiro pelo pingente foi a terceira. Juntas, essas perguntas formam sua
história, e você avança e retrocede entre elas através de rolagens de dados
(resultado de d10 menos resultado de d6). Cada pergunta tem sua própria página.
Se você parar na mesma pergunta uma segunda ou terceira vez, você vai para uma
segunda ou terceira pergunta na mesma página, que se baseia na primeira. Alguns
dos desfechos mais dramáticos estão escondidos nessas perguntas secundárias e
terciárias mais aprofundadas, já que você está mergulhando em um ponto
específico da trama para ver como ele afeta seu personagem.
Com
o passar dos anos, você se esquecerá de memórias (respostas a estímulos). Isso
o incentiva a mudar drasticamente sua personalidade, à medida que memórias
essenciais anteriores são substituídas por outras que o levam a caminhos
inesperados.
Existem
algumas estatísticas básicas. A maioria envolve simplesmente o controle de perícias,
NPCs e recursos. Mas as regras são bem simples e o jogo foi concebido como uma
experiência narrativa.
O
jogo incentiva o uso de um computador ou caderno para registrar as respostas,
mas você também pode simplesmente recitar suas respostas mentalmente enquanto
lê as instruções.
Atualmente
os jogos de RPG para um jogador (ou simplemente RPG solo) são um gênero
consagrado e ganhando cada vez mais adeptos. E embora este seja um RPG para um
jogador, ele também é algo mais. É solitário. Inóspito. E muitas vezes (embora
nem sempre) desolador. O jogo deixa claro que, se você tem tendência à
depressão, talvez não seja o jogo ideal para você. No entanto, se você gosta de
explorar as nuances de um personagem, sua moralidade e as consequências disso,
há muito o que descobrir.
Mas
vamos deixar, ele nem sempre é sombrio. Ele pode terminar com uma nota
inesperadamente esperançosa, por exemplo, ou muitos momentos de humanidade
comovente. Mas também há muitos momentos em estamos na corda bamba, com nossa
jornada prestes a ser bem menos redentora e esperançosa. Alguns lances de dados
azarados e estamos escrevendo uma história profundamente niilista em vez de uma
homenagem sincera à amizade. Mas ambas as possibilidades existem.
O
RPG (“convencional”) é sobre descoberta. Normalmente, isso acontece por meio de
uma colaboração semi-improvisada entre os jogadores e um Mestre. Mas sem um MJ
ou outros jogadores, você descobre a história por conta própria em Vampiro de
Mil Anos.
E
é uma verdadeira descoberta, porque você não conseguirá prever o que vai
acontecer. Mesmo que inocentemente nos preparemos antecipadamente – algo comum
quando nos aventuramos em uma nova proposta de RPG - tudo isso vai por água
abaixo quando começamos a realmente vivenciar a experiência de Vampiro de Mil Anos.
Algumas
pessoas já colocaram esse RPG como algo que oscila entre um RPG como imaginamos
e um exercício de escrita criativa, tendo uma separação tênue entre esses dois
pontos. Isso não é um elogio nem uma crítica, mas sim uma observação. O jogo me
parece um pouco mais meditativo do que eu imaginava no início
Um
dos pontos que nem sempre vemos abordados é que a história que vamos construir
não precisa necessariamente passar no mundo real. Podemos inseri-la em qualquer
cenário que tenhamos desejo e que conhecimento para a longa jornada de séculos
e séculos. O livro incentiva você a explorar a história por meio de suas
sugestões, ou a imaginar o futuro... então, por que não inserirmos nossa
história no nosso cenário preferido. O que quero dizer quando afirmo isso é que
a premissa é flexível. E isso confere ao jogo longevidade e capacidade de ser
jogado várias vezes.
Por
fim...
Gosto
de boas histórias e de reflexões sobre a condição humana... e também gosto de
escrever e por tudo isso apreciei deste jogo. Eu diria que é uma delícia, mas
essa não é a palavra certa. É atencioso e paciente com você de uma forma que
muitos jogos não são. Ele permite que você defina seus limites, escolha seus
temas e os acompanhe até suas conclusões lógicas — às vezes, sóbrias —, tudo
isso sem recorrer ao choque e outros truques baratos de alguns jogos
supostamente "adultos". Você pode ter choque, violência, sangue e
todo tipo de coisa em suas sessões, se quiser. Mas eles não são impostos a
você; em vez disso, você é convidado a refletir sobre as motivações mais
profundas por trás de seus personagens conflituosos e monstruosos. Essa é a
tarefa mais difícil, mas, no fim das contas, a mais recompensadora.
[Resenha realizada com a leitura do RPG em sua versão em inglês, além de resenhas dos sites Veritastabletop e Bumblingthroughdungeons]
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