sábado, 20 de dezembro de 2008

Diário de um Escudeiro - 18

Vigésimo oitavo dia de Cyd de 1392.

Realmente o amanhecer na Estalagem fora ótimo. Sir Constant acordou cantarolando como raramente eu vira. Ele passou aquele dia numa alegria esfuziante. As brincadeiras dele eram constrangedoras para as moças que nos acompanhavam. Na saída da estalagem um grupo de comerciantes pediu o obséquio de acompanharmos sua caravana até Gallienn. Então, na nossa companhia, estava uma quantidade considerável de pessoas, e isso incluía algumas raparigas que se derretiam para cada piada que meu senhor contava.

Assim o humor de Sir Constant estava garantido pelo menos pelo tempo em que elas nos acompanhassem. E elas, pelo visto estavam, também, encantadas com a presença de um verdadeiro cavaleiro.

Aquele primeiro dia transcorreu calmo. Os ares do outono melindrosamente avançavam tentando quebrar o calor já não tão forte. Era um caminho fácil este pedaço até Gallienn. Florestas de árvores não tão exuberantes em tamanho, mas sempre belas como tudo o que a grande mãe Allihanna cria. Claro que vez por outra a presença de cavaleiros de Yuden nos escrutinando era notada numa permanente vigília.

Conheci algumas pessoas bem interessantes, sem bem que o termo interessante pode ser usado à exaustão por mim que nunca saí dos campos de Namalkah. A caravana que acompanhávamos era composta por seis carroções abarrotados de mercadorias. Tinham ainda mais cinco carroças particulares para os comerciantes e seus empregados.

A caravana era uma sociedade de dois amigos, Karbos & Sullion Mercadorias, como eles mesmos se denominavam. Karbos era de Deheon e Sullion era um anão. Conheceram-se num dos grandes festivais de Gorendil a mais de vinte anos. De lá para cá sempre trabalharam juntos. Sua caravana era seu lar. Suas carroças levavam tudo o que precisavam para viver, inclusive suas famílias. Não que não tivessem uma casa da forma convencional, mas preferiam ficar de olho nos negócios. Além deles, acompanhavam a caravana quase três dúzias de empregados de todos os tipos. Eram vendedores, aias, camareiras e empregados para todas as necessidades que o negócio pedisse. Inclusive um grupo de três aventureiros que prestavam trabalho de segurança para Karbos e Sullion.

Kalla era um ladino. Como ele mesmo dizia - “quem melhor do que um ladrão para proteger os outros destes larápios das estradas?”. Era um Halfing muito alegre de olhos vívidos. Usava uma roupa totalmente verde para lhe deixar o mais camuflado possível no meio do mato. Ele ficava o tempo todo à frente da caravana ora avançando algumas jardas ora acompanhando os donos dando-lhes algumas dicas.

Trícia era uma aventureira das matas. Muito bela logo chamou a atenção de Sir Constant, mas pelos seus olhares ela estava mais disposta à retalhar-lhe do que fazer afagos. Montava um belo cavalo malhado que parecia entender tudo o que ela lhe falava. Volta e meia seu arco era retesado sem aviso e uma flecha encontrava um alvo que faria parte do jantar.

O terceiro aventureiro era Mikail. Ele era um caçador muito jovem que se dizia com ser um adepto do deus menor Lupan, deus dos caçadores. Era um pouco mais velho do que eu, mas sua experiência estava léguas de distância. Me contou que crescera no meio da floresta numa pequena vila de caçadores aos pés das Uivantes.


Passei quase toda a primeira parte do dia ao seu lado ouvindo suas aventuras junto dos outros dois aventureiros.
Contei-lhe, com muito orgulho, de minha contenda nas portas de um templo de Keenn e de minha vitória. Mas disse-lhe que tinha vontade de me aprimorar para ser mais útil ao meu senhor.

“- Tinha que aprender mais do uso da adaga, pelo menos, e quem sabe de uma espada pequena” – disse-lhe.

“- É verdade. Acho que todo o rapaz tem o dever de aprender a manusear uma arma para lhe proteger e para proteger os seus.”

“- Meu senhor precisa de que lhe seja o mais útil possível.”

“- Não sei bem se ele é a pessoa mais indicada para precisar de algo ou se está interessado nisto, mas posso lhe dar umas dicas iniciais, até que encontre alguém mais indicado par isso.” – ao que parece meu senhor não atraia muitos fãs.

Na tarde, nem o almoço tinha se assentado bem e já estava procurando Mikail para minhas primeiras aulas.


Foram dicas sobre o uso correto da adaga num combate. Ele explicou-me que das diferenças de usar a adaga nos afazeres da fazenda, como eu estava acostumado, e do uso num verdadeiro combate.

É incrível como apenas mudando a posição da adaga na mão já sentimos grande diferença na luta. Ele ensinou-me primeiramente algumas posições de defesa. Ele disse-me que se conseguirmos nos defender já é meio caminho andado. Foi uma hora muito proveitosa. Quando recomeçamos a viajem e lhe continuou a dar-me dicas mesmo sobre o cavalo. Sir Constant continuava seguindo viajem ao lado da carroça das raparigas que quase caiam dela por tanto se debruçarem tentando chegar mais perto dele. Com isso meu treinamento passou desapercebido.

Na nossa parada para dormirmos dispomos as carroças em um círculo bem fechado e acendemos algumas fogueiras do lado de fora e de dentro do círculo. Trícia tinha caçado pelo menos uma gazela e um porco do mato. Além disso, Karbos e Sullion não eram conhecidos por serem mesquinhos quanto as refeições. O jantar fora fartíssimo.

Depois de todos meus afazeres junto ás necessidades de meu senhor, e aproveitando que ele já estava engraçando-se com pelo menos três moças, corri para a fogueira dos aventureiros. Kalla estava no meio do mato e por lá ficaria para espreitar nosso redor. Comi meu jantar junto de Mikail e Trícia. Nesta altura ele já contara minha aventura para a aventureira que logo me passou tantas dicas que confesso não lembrar nem da metade. Depois pediu para que demonstrasse o que Mikail houvera me ensinado numa demonstração teatralizada como se estivéssemos – eu e ele – num verdadeiro combate. Ela ia interrompendo e corrigindo uma coisa ou outra entre cada gole na garrafa de vinho.

Por fim, depois de algumas horas de muita diversão ela adormeceu recostada em seu cavalo. Todo o acampamento estava em silêncio e a maioria das lamparinas estavam apagadas. Os sons da floresta estavam mais presentes ainda. O único som díspar vinha da tenda de Sir Constant, e ele não estava sozinho.

Conversei ainda mais algum tempo com Mikail, mas logo vim para a minha tenda. Não desejava perder nenhum detalhe para colocar no diário.

Foi um dia incrível.

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