terça-feira, 14 de julho de 2026

A Finlândia reconhece RPG como patrimônio vivo e cultura

 A Finlândia reconhece RPG
como patrimônio vivo e cultura

 

Já é comum que os jogos de tabuleiro tenham reconhecimento como uma cultura “digna” de preservação em diversos países. Muitos têm até mesmo o status de pedagógicos. Agora a Finlândia dá um passo além e pode ser o primeiro país a reconhecer oficialmente a prática de RPG como parte de seu patrimônio cultura vivo. Em junho de 2026, o Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Vivo do país foi ampliado para incluir 22 novas tradições, entre elas o preparo de tortas da Carélia, o festival Durga Puja celebrado por imigrantes indianos e, notavelmente, os jogos de RPG. 

O Inventário Nacional do Patrimônio Vivo é resultado de uma convenção da UNESCO de 2003 que reconheceu que, apesar de seus benefícios, “os processos de globalização e transformação social”, bem como “o fenômeno da intolerância”, geram “graves ameaças de deterioração, desaparecimento e destruição do patrimônio cultural imaterial” de uma nação. A convenção solicitou aos países membros que criassem seus próprios inventários e trabalhassem para salvaguardar, desenvolver e promover seu patrimônio cultural imaterial.

Jukka Ursin, designer e editor da Mesolit Games comentou que a ideia de solicitar a inclusão de RPGs no Inventário Nacional surgiu inicialmente no Facebook. Mika Joensuu já havia conseguido incluir coleções de miniaturas e jogos ("figupeli") no Inventário Nacional e queria fazer o mesmo com os RPGs. Ursin e Ekso Vesala, um jogador veterano, se ofereceram para ajudar, e o trio formou a equipe principal. Segundo Ursin: “Organizações se juntaram mais tarde no processo, para apoiar e assinar a solicitação. Acho que essa abordagem de baixo para cima é muito apropriada – RPGs não são algo que precisa ser organizado centralmente, é algo que as pessoas simplesmente fazem.”

Em sua inscrição, os membros da equipe escrevem sobre o RPG como uma prática ampla, incluindo jogos de mesa, LARP e jogos online baseados em texto. Eles falam sobre as origens da cultura nas décadas de 1970 e 80, identificando The Secret Treasure of Raguoc in the Acirema Dungeons, publicado em 1985 por Risto "Nordic" Hieta, como o primeiro RPG finlandês. Eles também destacam a Ropecon (pronunciada mais como "ropuh-con") como o maior evento do país dedicado ao hobby. O evento atraiu cerca de 10.000 pessoas ao longo de dois dias em 2025, o que também o torna um dos maiores eventos de jogos organizados por voluntários na Europa. Entre os convidados de honra recentes da Ropecon estão a equipe por trás de "Shut Up & Sit Down", Avery Alder (autor de "The Quiet Year") e Alex Roberts (autor de "For the Queen").

Ainda, segundo Ursin: “Queríamos mostrar que os RPGs são uma tradição viva – algo que as pessoas praticam ativamente agora, ensinando, transmitindo, com sua história, tradições e cultura próprias – não apenas uma moda passageira do momento, nem algo que aconteceu no passado. Do ponto de vista de um jogador veterano, isso é meio óbvio, mas ao escrever uma proposta como esta, o objetivo é o público em geral e organizações como a Agência Finlandesa do Patrimônio e, em última instância, a UNESCO.”

Ele continuou: “Queríamos mostrar que os RPGs são uma cultura própria que transcende gerações e participantes individuais; uma tradição viva que não precisa de um órgão central hierárquico, mas que se transmite de jogador para jogador, de mesa para mesa. Queríamos enfatizar os aspectos intangíveis e invisíveis – os RPGs, claro, se refletem em artefatos tangíveis e materiais – livros de regras, fichas de personagem e assim por diante; no caso de LARPs, adereços – mas a coisa em si não é uma coisa, é o que acontece na mesa. Não é armazenado, não é material, não pode ser compartilhado, não pode ser lido ou visualizado posteriormente. Preservar e tornar visível aquilo que não pode ser diretamente preservado ou visualizado é, acredito, muito importante no contexto histórico mais amplo.”

O resultado final é um sopro de ar fresco. É fácil ver o RPG como uma atividade de nicho — algo definido em grande parte pelo seu tamanho (ou falta dele). Mas incluí-lo em um arquivo ao lado de artes cênicas, festivais e comida tradicional — sem mencionar teatro de fantoches, histórias para dormir e até brincar na neve — revela o quanto não existe um compartimento isolado, mas sim um espectro de atividades profundamente humanas.

Acendemos fogueiras e dançamos sob o céu estrelado, jogamos mölkky e tomamos banho de sauna, nos reunimos, nos divertimos e criamos coisas belas”, disse Ursin sobre o povo finlandês. “E se não dissermos que isso é algo que fazemos, é possível que acabemos nos esquecendo desse tipo específico de brincadeira, e o mundo se torne muito menos lúdico nesse sentido.”

[Artigo adaptado do original lançado pelo site Rascal News]

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