Pathfinder 2e
Contos - Encontros
Icônicos
O Peso da
Responsabilidade
Até
onde você iria para salvar aqueles que ama?
Para
Usharak, isso não foi sequer um pensamento passageiro. Para ele, a questão é:
até onde posso ir para salvar aqueles que amo? A resposta parece se
expandir à medida que Usharak viaja e se fortalece; hoje, porém, a resposta
residia nas profundezas da Cicatriz de Sarkoris. O local — outrora a Ferida do
Mundo, uma fratura na realidade que permitiu a entrada de habitantes demoníacos
das Fendas Exteriores em Golarion — ainda fervilhava de demônios e cultistas,
mesmo enquanto os sarkorianos nativos trabalhavam para recuperar suas terras
devastadas. Entre as ruínas, Usharak descobrira a existência de uma biblioteca
antiga dedicada ao senhor demoníaco Abraxas, cuja origem talvez antecedesse até
mesmo a abertura da Ferida do Mundo. Lá dentro, ele esperava encontrar algum
poder ou pacto capaz de desfazer sua grande vergonha. Por mais maligno que
fosse, se servisse ao seu propósito, ele não hesitaria em recorrer a tal meio.
Enquanto
avançava cada vez mais fundo, ele se lembrou das caçadas de sua infância e
questionou-se se ali era o caçador ou a presa. O peso constante de sua culpa
apertou-lhe o peito com esse pensamento. Ele conseguira evitar muitos
confrontos diretos graças a uma navegação lenta e cautelosa. Poucos demônios
agem com paciência, e o necromante tirou proveito disso em seu deslocamento.
Ele induziu vários grupos de demônios a investidas inúteis enquanto passava
furtivamente por eles. Mas a sorte de Usharak não duraria muito.
Um
som semelhante ao estrondo de uma onda oceânica interrompeu sua jornada;
contudo, em vez do fluxo metódico de subida e descida, o ruído apenas aumentava
de volume. Usharak avistou a nuvem, mas já era tarde demais. Ela se aproximava
a uma velocidade impressionante. O som não vinha do oceano, mas do bater de
centenas de asas. Um enxame de vescavors estava sobre ele. Centenas de pequenas
criaturas verdes — cada uma não passando de asas e uma boca — voavam ao redor
do necromante, entoando uma canção enlouquecedora. Usharak não teve tempo de
tapar os ouvidos. O clamor incessante daquela canção ecoava em sua mente
enquanto o cercavam. Era muito pior do que qualquer dor de cabeça. Sentiu sua
mente traí-lo e mergulhou na confusão. Viu lampejos de sua aldeia, de um tempo
distante. Um grupo alegre de iruxis fazendo o possível para sobreviver em um
mundo hostil. Ele os via mortos, ao seu redor. Eles o chamavam.
“Por
que você não nos salvou?”
“Você
era o nosso protetor!”
“Por
que você fugiu?”
As
palavras corroíam sua alma, pois ele sabia que todas eram verdadeiras. Ele era
um covarde e um fracassado. Ele reagiu com fúria àquelas palavras cruéis, como
se pudesse combater a verdade. Que esforço inútil. A dor das mordidas dos
vescavors por toda a sua pele era o lembrete constante de que o peso em suas
costas era o seu fardo, e o coro incessante de vozes incoerentes em sua mente
era a prova de seu fracasso inevitável em uma tarefa impossível.
Não.
Aquele
peso em suas costas não era um fardo. Eram sua família, seus entes queridos e
seu propósito. Ele não se deixaria abater pelo peso de sua responsabilidade.
Ele havia falhado com eles uma vez; não falharia novamente.
Usharak
despertou do torpor causado pelo canto do enxame, coberto de marcas de
mordidas. Com a mente lúcida novamente, o necromante invocou seus amigos. Ele
sempre havia contado principalmente com Arakuru e Telek. Eles jamais
decepcionaram a aldeia, nem a Usharak. Assim que os esqueletos se
materializaram, Arakuru não perdeu tempo e avançou contra o enxame, lança em
punho. Embora tenha conseguido espetar alguns daqueles insetos monstruosos de
uma só vez, isso pouco fez para deter a horda imensa. Telek sempre fora uma
caçadora mais paciente e calculista. Ela aguardava ao lado do necromante,
sabendo que o guardião dos ossos da aldeia precisaria dela quando chegasse a
hora.
E
a hora chegou mais cedo do que Usharak desejava: o enxame perdeu o interesse em
morder ossos e investiu contra o necromante. Usharak desviou o olhar e cravou a
garra no peito de Telek. Ele detestava ver seus amigos serem destruídos, mesmo
que fossem apenas simulacros formados pelo poder necrótico contido em segurança
nos ossos que carregava nas costas. O corpo esquelético de Telek explodiu,
lançando estilhaços ósseos contra o enxame.
O
enxame se dispersou em um silêncio inquietante. Por um breve momento, Usharak
pensou que o pior já havia passado, mas então ouviu-se o grito. Um demônio
vescavor de tamanho monstruoso aproximava-se rapidamente. Seus cinco pares de
asas e braços anormalmente longos eram os sinais mais evidentes de que se
tratava de uma rainha vescavor. O necromante não ficou para lutar; em vez
disso, escolheu fugir. Apesar de ter o tamanho de um pequeno elefante, o inseto
voava a uma velocidade alucinante.
O
necromante precisava pensar rápido. Os vescavores haviam devorado aquela região
da antiga Ferida do Mundo até o osso — literalmente. O chão parecia
calcificado, e havia estranhos pilares retorcidos, feitos do mesmo material,
por toda parte. Ao passar correndo por um pilar, o necromante desviou
ligeiramente a trajetória, arriscando um toque superficial. Bastou roçar no
pilar para confirmar que eram, de fato, feitos de osso. Embora fosse uma
verdade macabra, isso dava ao necromante uma vantagem. Aqueles ossos não
estavam sob seu comando, mas ele conseguia deduzir o quão frágeis eram os
pilares e onde estavam seus pontos mais fracos.
Com
pouco tempo antes de a rainha alcançá-lo, Usharak escolheu sua posição e
encurralou-se de uma forma que favorecia a rainha. Talvez — apenas talvez — ela
baixasse a guarda. O plano era arriscado, mas o necromante não tinha tempo para
pensar em algo melhor. Então, Usharak tropeçou.
A
rainha o havia alcançado e desacelerou levemente ao se aproximar. Havia uma
fome evidente em seus... bem, ela não tinha olhos, mas claramente salivava uma
substância que parecia uma gosma tóxica. Usharak sentou-se, sem forças para se
levantar. A jornada o havia exausto, e ele parecia ter aceitado seu destino. Ou
assim parecia. No momento em que a rainha se preparava para avançar e devorar o
necromante que matara suas crias, Usharak gritou: "Agora!"
Arakuru, que fora posicionado cuidadosamente, lançou-se à frente; seu corpo
estava fundido à sua lança de osso, que já era aterrorizante por si só. A lança
ampliada não atingiu a rainha, mas sim o pilar atrás de Usharak. Com um
rolamento rápido, o necromante conseguiu escapar do pilar. A rainha não estava
tão preparada; o pilar de osso desabou, esmagando a rainha insetoide. Usharak
parou um pouco para descansar dessa empreitada aterrorizante. Por fim, o iruxi
levantou-se, limpou o pó de osso de suas escamas e seguiu seu caminho. Ele
sabia que estava se aproximando de um desafio ainda maior. Ao chegar à entrada
da biblioteca em ruínas, preparou-se para negociar a vida dos habitantes de sua
aldeia. Qual seria o preço de uma única alma diante de tantas já perdidas?
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Joshua Birdsong
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