quarta-feira, 1 de julho de 2026

Pathfinder 2e - Contos - Encontros Icônicos: O Peso da Responsabilidade

 Pathfinder 2e
Contos - Encontros Icônicos
O Peso da Responsabilidade

 

Até onde você iria para salvar aqueles que ama?

Para Usharak, isso não foi sequer um pensamento passageiro. Para ele, a questão é: até onde posso ir para salvar aqueles que amo? A resposta parece se expandir à medida que Usharak viaja e se fortalece; hoje, porém, a resposta residia nas profundezas da Cicatriz de Sarkoris. O local — outrora a Ferida do Mundo, uma fratura na realidade que permitiu a entrada de habitantes demoníacos das Fendas Exteriores em Golarion — ainda fervilhava de demônios e cultistas, mesmo enquanto os sarkorianos nativos trabalhavam para recuperar suas terras devastadas. Entre as ruínas, Usharak descobrira a existência de uma biblioteca antiga dedicada ao senhor demoníaco Abraxas, cuja origem talvez antecedesse até mesmo a abertura da Ferida do Mundo. Lá dentro, ele esperava encontrar algum poder ou pacto capaz de desfazer sua grande vergonha. Por mais maligno que fosse, se servisse ao seu propósito, ele não hesitaria em recorrer a tal meio.

Enquanto avançava cada vez mais fundo, ele se lembrou das caçadas de sua infância e questionou-se se ali era o caçador ou a presa. O peso constante de sua culpa apertou-lhe o peito com esse pensamento. Ele conseguira evitar muitos confrontos diretos graças a uma navegação lenta e cautelosa. Poucos demônios agem com paciência, e o necromante tirou proveito disso em seu deslocamento. Ele induziu vários grupos de demônios a investidas inúteis enquanto passava furtivamente por eles. Mas a sorte de Usharak não duraria muito.

Um som semelhante ao estrondo de uma onda oceânica interrompeu sua jornada; contudo, em vez do fluxo metódico de subida e descida, o ruído apenas aumentava de volume. Usharak avistou a nuvem, mas já era tarde demais. Ela se aproximava a uma velocidade impressionante. O som não vinha do oceano, mas do bater de centenas de asas. Um enxame de vescavors estava sobre ele. Centenas de pequenas criaturas verdes — cada uma não passando de asas e uma boca — voavam ao redor do necromante, entoando uma canção enlouquecedora. Usharak não teve tempo de tapar os ouvidos. O clamor incessante daquela canção ecoava em sua mente enquanto o cercavam. Era muito pior do que qualquer dor de cabeça. Sentiu sua mente traí-lo e mergulhou na confusão. Viu lampejos de sua aldeia, de um tempo distante. Um grupo alegre de iruxis fazendo o possível para sobreviver em um mundo hostil. Ele os via mortos, ao seu redor. Eles o chamavam.

Por que você não nos salvou?

Você era o nosso protetor!

Por que você fugiu?

As palavras corroíam sua alma, pois ele sabia que todas eram verdadeiras. Ele era um covarde e um fracassado. Ele reagiu com fúria àquelas palavras cruéis, como se pudesse combater a verdade. Que esforço inútil. A dor das mordidas dos vescavors por toda a sua pele era o lembrete constante de que o peso em suas costas era o seu fardo, e o coro incessante de vozes incoerentes em sua mente era a prova de seu fracasso inevitável em uma tarefa impossível.

Não.

Aquele peso em suas costas não era um fardo. Eram sua família, seus entes queridos e seu propósito. Ele não se deixaria abater pelo peso de sua responsabilidade. Ele havia falhado com eles uma vez; não falharia novamente.

Usharak despertou do torpor causado pelo canto do enxame, coberto de marcas de mordidas. Com a mente lúcida novamente, o necromante invocou seus amigos. Ele sempre havia contado principalmente com Arakuru e Telek. Eles jamais decepcionaram a aldeia, nem a Usharak. Assim que os esqueletos se materializaram, Arakuru não perdeu tempo e avançou contra o enxame, lança em punho. Embora tenha conseguido espetar alguns daqueles insetos monstruosos de uma só vez, isso pouco fez para deter a horda imensa. Telek sempre fora uma caçadora mais paciente e calculista. Ela aguardava ao lado do necromante, sabendo que o guardião dos ossos da aldeia precisaria dela quando chegasse a hora.

E a hora chegou mais cedo do que Usharak desejava: o enxame perdeu o interesse em morder ossos e investiu contra o necromante. Usharak desviou o olhar e cravou a garra no peito de Telek. Ele detestava ver seus amigos serem destruídos, mesmo que fossem apenas simulacros formados pelo poder necrótico contido em segurança nos ossos que carregava nas costas. O corpo esquelético de Telek explodiu, lançando estilhaços ósseos contra o enxame.

O enxame se dispersou em um silêncio inquietante. Por um breve momento, Usharak pensou que o pior já havia passado, mas então ouviu-se o grito. Um demônio vescavor de tamanho monstruoso aproximava-se rapidamente. Seus cinco pares de asas e braços anormalmente longos eram os sinais mais evidentes de que se tratava de uma rainha vescavor. O necromante não ficou para lutar; em vez disso, escolheu fugir. Apesar de ter o tamanho de um pequeno elefante, o inseto voava a uma velocidade alucinante.

O necromante precisava pensar rápido. Os vescavores haviam devorado aquela região da antiga Ferida do Mundo até o osso — literalmente. O chão parecia calcificado, e havia estranhos pilares retorcidos, feitos do mesmo material, por toda parte. Ao passar correndo por um pilar, o necromante desviou ligeiramente a trajetória, arriscando um toque superficial. Bastou roçar no pilar para confirmar que eram, de fato, feitos de osso. Embora fosse uma verdade macabra, isso dava ao necromante uma vantagem. Aqueles ossos não estavam sob seu comando, mas ele conseguia deduzir o quão frágeis eram os pilares e onde estavam seus pontos mais fracos.

Com pouco tempo antes de a rainha alcançá-lo, Usharak escolheu sua posição e encurralou-se de uma forma que favorecia a rainha. Talvez — apenas talvez — ela baixasse a guarda. O plano era arriscado, mas o necromante não tinha tempo para pensar em algo melhor. Então, Usharak tropeçou.

A rainha o havia alcançado e desacelerou levemente ao se aproximar. Havia uma fome evidente em seus... bem, ela não tinha olhos, mas claramente salivava uma substância que parecia uma gosma tóxica. Usharak sentou-se, sem forças para se levantar. A jornada o havia exausto, e ele parecia ter aceitado seu destino. Ou assim parecia. No momento em que a rainha se preparava para avançar e devorar o necromante que matara suas crias, Usharak gritou: "Agora!" Arakuru, que fora posicionado cuidadosamente, lançou-se à frente; seu corpo estava fundido à sua lança de osso, que já era aterrorizante por si só. A lança ampliada não atingiu a rainha, mas sim o pilar atrás de Usharak. Com um rolamento rápido, o necromante conseguiu escapar do pilar. A rainha não estava tão preparada; o pilar de osso desabou, esmagando a rainha insetoide. Usharak parou um pouco para descansar dessa empreitada aterrorizante. Por fim, o iruxi levantou-se, limpou o pó de osso de suas escamas e seguiu seu caminho. Ele sabia que estava se aproximando de um desafio ainda maior. Ao chegar à entrada da biblioteca em ruínas, preparou-se para negociar a vida dos habitantes de sua aldeia. Qual seria o preço de uma única alma diante de tantas já perdidas?
 

- Joshua Birdsong




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